quinta-feira, 7 de maio de 2009

PENSAMENTO QUE SILENCIA - bichos no metrô

O metrô abre suas portas na estação da Sé. Entram vários bichos. Entre eles, uma vaca branca é conduzida pela multidão para dentro do vagão. Nem percebe direito como foi parar sentada naquela poltrona ao lado de uma vaca preta, que aliás, muito atenta, percebeu em seu semblante uma feição de quem pensa “bosta de vida!”.
-- ta tudo bem com você, perguntou a vaca preta
-- sim, obrigada!
A vaca preta não se convence. É visível uma ruga de preocupação na testa da vaca branca.
-- desculpa a intromissão, afinal, sou uma estranha.
-- não precisa se desculpar. Gentileza da sua parte se preocupar.
-- eu percebi você meio pensativa.
-- nada, não.
Já era estação Bresser.
-- se quiser desabafar...
-- brigada, eu to bem.
-- parece pensativa.
-- nada.
-- essa ruga é de pensamento incômodo. Ta pensando em quê?
Depois de muito custo, a vaca branca se rende.
-- na morte da bezerra.
-- não brinca! A bezerra morreu?
-- tão nova!
-- gente! Nem fiquei sabendo.
-- não foi muito divulgado.
-- meu Deus! Como pode!?
-- algo terrível
-- muito
-- demais
-- tão jovem!
-- muito jovem
-- e como foi?
-- pelo que eu soube, foi de repente.
-- não sei nem o que dizer.
-- fiquei assim também.
-- ninguém espera, né?
-- tão bonita. Sempre sorridente.
O silêncio entre as duas se contrastou com o rebuliço que tomava conta do vagão. Muitos bichos se movimentando no aperto do horário, na correria diária. Elas não perceberam nada. A morte da bezerra havia invadido seus pensamentos de tal forma que tudo parecia inerte. Todo o áudio do metrô foi reduzido. E mais uma estação e outra e outra... as portas se abriam, fechavam, apitavam, bichos desciam, subiam...
-- em pensar que tinha toda uma vida pela frente.
-- o pior de tudo é não ter nem chegado a ser vaca.
-- nem isso.
-- é tão terrível, né?
-- inimaginável.
-- morrer sem nem ao menos ter virado vaca!
-- pois é. E o boi?
-- inconsolável. De dar pena.
-- coitado!
Na estação terminal, o metrô esvaziava enquanto lotava. As duas se perderam na multidão, agora ambas pensando na morte da bezerra.

Autoria: Everson Bertucci

2 comentários:

Priscila Santos disse...

Ótimo!Ri muito! Nunca pensei que a morte havia impedido a bezerra de se tornar vaca, bem pelo menos ela não vai ser mais uma no metrô... Seu humor está ficando cada vez mais refinado, quero dizer que você está jogando com a língua, entende? Claro que vc entende, o que é escrever senão isso?
Beijos!

Mafuane Oliveira disse...

Amei!