No tumulto comum ao horário de fim de expediente, dentro do vagão, duas galinhas não conseguem assento e ficam espremidas entre outros tantos bichos que ali se encontram. Não tendo muito o que fazer entre o abrir e o fechar das portas nas estações, elas se deparam com uma publicidade bem peculiar a elas. Seus olhos são puxados para a imagem. Um comercial do macarrão instantâneo “nissin miojo”. Com o slogan “o sabor de verdade”, uma galinha, modelo profissional, deliberadamente está entrando dentro de um saquinho de miojo, sabor galinha caipira. Daí a justificativa do slogan.
As galinhas ficaram um período curto sem ação até que uma delas rompe o silêncio com um comentário bem típico entre as galináceas.
-- estou chocada!
-- estamos mesmo vendo isto?
-- infelizmente!
-- como pode uma de nós se prestar a um papel desses?
-- meu Deus!
-- ultrajante!
-- imagine quantas galinhas serão eliminadas a partir disto.
-- o que pode passar na cabeça de uma galinha dessas?
-- é o sucesso, a exposição midiática, a fama.
No outro vagão duas vacas visualizam a mesma publicidade do macarrão, agora sabor carne: uma vaca entrando no pacote de miojo. Enquanto conversam, saboreiam um apetitoso pacote de batata frita.
-- vê o que vejo?
-- uma vaca!
-- exatamente. Uma vaca entrando num saquinho de miojo.
-- repara o sorriso dela.
-- alienada!
-- depois não querem que as taxem de “vaca”.
-- burra!
-- hein?!
-- a modelo.
-- ah!
-- elas não pensam?
-- ficam cegas.
-- triste!
-- triste!
-- não é toda a espécie que teve acesso a uma boa instrução, a uma boa orientação, como nós.
-- é nisso que eu penso: instrução.
-- quantas vacas são abatidas a cada minuto graças a esse tipo de barbaridade?
-- fora as que nascem já predestinadas.
-- aí vem uma vaca instruída, com acesso à informação e se submete a este tipo de comportamento.
-- revoltante!
-- hum, que batata gostosa! Que sabor é esse?
-- peito de peru.
-- meu preferido!
As portas do metrô se abrem na estação da Sé e os bichos saem quase massacrados. No entra e sai uma das galinhas esbarra numa cadelinha que ouve sua música numa altura possível de ser identificada por quem se aproxima.
“Hu-hu-hu-hu-hu! Só as cachorra!...”.
Autoria: Everson Bertucci
1 comentários:
Divertido, Everson! Bem diferente dos seus outros textos! só achei que o lance do funk tirou o foco, no final...
abraço!
Postar um comentário