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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Além da Vida


Filme de Clint Eastwood traz a morte como tema principal

Três personagens muito bem estruturados. Um pouco confusos entre si. Inglaterra, França e Estados Unidos, estes são os cenários. A morte é o que eles têm em comum. Mas não do mesmo jeito. Um vidente que vê seu dom como maldição, uma jornalista que passou pela experiência de quase morte e uma criança introvertida que perdeu seu irmão gêmeo e não sabe viver sem ele.
-- mãe, traz o Jason de volta!
-- você não está dizendo isso, só está pensando! Não vê que precisa dizer isso, fazer as coisas acontecerem. Você não é ele, ele não é você. São pessoas diferentes. Precisa tomar suas próprias decisões.

Vem o tsunami e devasta tudo.
-- corre, vem comigo! Vamos, corre! Segura minha mão.
A água invade tudo e as separa.
-- me dê sua mão. Vem comigo! Me dê sua mão! Me dê sua mão! Segura em mim!
O ursinho sai flutuando em meio aos automóveis, casas, objetos e corpos que bóiam pela cidade destruída. Alguns ainda lutam pela vida.
-- me dê sua mão! Me dê sua mão!
-- tarde demais, eu já não estou mais junto a ti.
O desmaio e a alucinação. A quase morte. O ursinho visto de baixo d’água em câmera lenta. O símbolo.

-- uma mulher alta. Sua esposa?
-- sim.
-- ela está com a mão no peito. Aperta forte. Foi como ela morreu?
-- sim. Infarto.
-- viveram muitos anos juntos?
-- sim.
-- ela se desculpa e pede a você que viva sua vida. Você está velho e precisa se reconstituir antes que seja tarde.
Promete que é a última vez que faz isso.
-- isso é um dom.
-- Não pra mim. Eu não consigo mais viver desse jeito, você não entende!?

Ela não esquece a imagem do ursinho e das visões que teve embaixo d’água. Resolve escrever sobre sua experiência. O garoto tenta encontrar uma resposta sobre seu irmão gêmeo e o vidente foge para um lugar novo onde ninguém possa interferir em sua vida.
-- se vocês quiserem, eu posso autografar o livro! Se gostaram...
-- eu quero.
Um sorriso. Troca de olhares.
-- você é o vidente.
-- você está me confundindo, garoto!
-- é sim. Eu te vi na internet. É você. Eu preciso que você me ajude.
-- não sei do que está falando.
Sai no meio das pessoas, tenta se desvencilhar. A jornalista continua autografando seus livros.

-- tira esse boné. Ele é meu. Aquele dia da explosão fui eu quem te salvou. Mas foi a última vez. Não usa mais este boné. Ele é meu. Agora você vai ter que construir sua própria história. Tome suas próprias decisões. Joga fora este boné.
Faz frio. É noite.

-- ela está naquele hotel que havia te falado.
-- eu vi como vocês se olhavam. Sinto muito por ter atrapalhado.
-- eu não sei do que você está falando, garoto!
-- mas agora sabe onde encontrá-la.
-- eu...
Desliga o telefone.

Quer saber quem são estes personagens, estas histórias e como elas se relacionam com a morte? Assista ao filme Além da Vida. Bem difícil se arrepender. A direção é do impagável e sempre certeiro Clint Eastwood. No elenco, Matt Damon, Cécile de France e Frankie McLaren.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Patrik 1.5 - O Filme

As Sutilezas do Preconceito


Estreou no dia 18 de junho, o longa Patrik 1.5, em apenas duas salas de cinema, em São Paulo. Uma no Cinesesc, outra no Frei Caneca Unibanco Arteplex. Dirigido por Ella Lemhagen, o filme aborda a temática homossexual pelo ângulo da adoção. Goran (Gustaf Skarsgård) e Sven (Torkel Petersson), um casal gay de uma cidadezinha da Suécia, decidem adotar uma criança. Eles entram com um pedido e após algum tempo, conseguem o que tanto queriam. Ficam sabendo que o pedido foi aceito e que um menino chamado Patrik, de 1,5 ano, será seu filho. Tudo seria perfeito, não fosse um erro de digitação: uma vírgula no lugar indevido.

Os clichês são transpostos logo na primeira sequência do longa. Desde a opção pelos créditos coloridos e piscantes até as flores de cores vibrantes espalhadas pelos jardins da vizinhança, culminando nas estampas das roupas de alguns personagens. Clichês estes que vão ficando em segundo, terceiro, quarto plano, quando a trama vai sendo apresentada. Primeiro conhecemos Goran, um simpático homem recém-mudado para a cidade, que está numa festa cheia de casais heterossexuais falando sobre relacionamentos. Os homens passam a apresentar suas esposas a Goran e logo perguntam onde está a sua. Neste momento entra Sven, e Goran o apresenta: “Este é Sven, meu marido!”.


As reações são de constrangimento. Sorrisos amarelos, olhares interrogativos. Mas o foco não é bem este. Ao conhecer melhor o casal, podemos conhecer um pouco de seus gostos musicais, seus jeitos diferentes de lidar com as coisas e saber o quão importante é para Goran a necessidade de ter um filho. Seu marido, Sven, é pai de uma adolescente de 16 anos – envergonhada pela sexualidade deste - fruto do mal sucedido casamento com a mãe da garota. Por isso, Sven não tem a mesma empolgação de Goran, mas concorda.

Eles dão entrada à papelada burocrática da adoção e logo chega uma correspondência os avisando que a Justiça está lhes dando a guarda de um menino por nome Patrik, de apenas 1.5 ano. Mas quem bate à sua porta é um outro Patrik, um adolescente de 15 anos, interpretado por Thomas Ljungman. O casal acha que houve um engano e tenta desfazer a troca, pois acreditam que seu Patrik, de um ano e meio, foi levado para outra família. Vão até a Assistência Social, mas como é fim de sexta-feira, não conseguem atendimento. Descobrem apenas que o adolescente é rebelde, tem passagens criminais e inúmeros problemas. Ficam apavorados ao saber que terão que passar alguns dias na mesma casa com o rapaz.

Bom, a trama é basicamente esta que acaba resultando na separação do casal e algumas confusões com a vizinhança. Aos poucos Goran e Patrik começam a se conhecer melhor. A convivência forçada faz com que ambos possam romper fronteiras, vencer preconceitos. O adolescente não suporta a ideia de ter que conviver com gays, mas aos poucos começa a ver Goran não como um homossexual, mas sim como alguém que está disposto a ajudá-lo, mesmo sabendo do seu passado conturbado.

Goran, no começo, sente um pouco de receio por causa do histórico de Patrik, mas começa a explorar o que de melhor o garoto tem. Ironicamente, Goran não tem habilidade com plantas e descobre que o garoto sabe como ninguém a lidar com elas. Começa aí uma aproximação que resultará em momentos empolgantes, de silêncio que dizem muito mais do que diálogos explicativos. Não se trata de um enredo surpreendente e cheio de surpresas, mas quem sabe uma ode às possibilidades que a vida, às vezes, pode reservar.

Como pano de fundo, o filme mostra como a sociedade ainda lida com estranheza ao se deparar com um casal homossexual vivendo tão próximo. Dizer que não se tem preconceito é sempre muito fácil e correto, mas e quando a realidade resolver bater à sua porta, como será?

Toc toc...

-- Meu nome é Patrik!

quarta-feira, 24 de março de 2010

George & Jim

Um olhar sobre o primeiro longa de Tom Ford



A safra de filmes com temática homossexual tem crescido consideravelmente, embora seja a maior parte voltada ao universo masculino. Recentemente o cinema nacional abordou o romance incestuoso entre dois irmãos, e no início do mês chegou às telas do país o primeiro longa do estilista e agora diretor Tom Ford. Trata-se da história de George (Colin Firth), um professor de meia idade que não se acostuma com a morte se seu companheiro Jim (Mattew Goode), que morreu num acidente de carro. Após o rompimento forçado de seu relacionamento, o professor passa a sentir a dor da perda de seu grande amor e passa a conviver com a incapacidade de lidar com isto. Essa é a trama principal de A Single Man, que aqui no Brasil ganhou o título Direito de Amar.

O filme fala sobre os medos que afligem uma pessoa, seja ela quem for. Já parou para pensar quais são os seus medos e se seria possível lidar com eles, encará-los? Quem estiver esperando uma trama cheia de cenas picantes e corpos se roçando, pode se decepcionar. Ford está muito mais para as entrelinhas do que para o óbvio, muito mais para a beleza do que para o grotesco, muito mais para o romantismo do que para o imediatismo, muito mais para a sensualidade do que para o apelativo. O longa aborda entre outras coisas, a durabilidade de um relacionamento homossexual, um relacionamento verdadeiro que é rompido bruscamente por uma fatalidade.

O perfeccionismo do diretor no mundo da moda se reflete claramente no filme. Está tudo impecável, do figurino aos penteados. A vida de George está muito lenta e é assim que ele passa a ver o mundo que o cerca. Seus sentidos estão aflorados e tudo passa a ser percebido por ele. Os detalhes, os olhares, os gestos, os odores, as lembranças. Oito meses sem Jim não foram suficientes para acalmar seus ânimos. O tempo parece ter aflorado suas angústias, o levando ao precipício. Direito de Amar vem na contramão dos relacionamentos vazios e meramente quantitativos. George não se deixa levar pela oferta de sexo fácil na tentativa de aliviar momentaneamente sua dor, que no senso comum seria a solução mais viável e certeira de agradar o público.

Tudo está muito à flor da pele pelo fato de ter vivido um grande amor que durou 16 anos e só foi interrompido pela morte trágica. O filme não fala exatamente sobre o amor, mais sim sobre a ausência dele em tempos em que a durabilidade de um relacionamento é ínfima. Nessa era de deixar aflorar apenas os desejos carnais e a experimentação cada vez mais acelerada por relações frívolas e sem nenhum compromisso, Direito de Amar apresenta sutilmente a possibilidade de levar uma história de amor por longos anos, principalmente ao se tratar de um relacionamento homossexual, que geralmente não são duradouros.

domingo, 16 de agosto de 2009

RETRATO MICROSCÓPICO DO PRIMEIRO BEIJO - resenha do curta metragem "Saliva"

A boca que precede o primeiro beijo. Esta é a primeira imagem de “Saliva”, de Esmir Filho. Primeiro se conhece a boca, a protagonista da história. E a partir daí passamos a acompanhar sua dona, uma menina de doze anos que está prestes a passar por uma das experiências mais instigantes e fundamentais na vida de uma pessoa.

O espectador é convidado a se colocar no papel da jovem que está vivenciando um momento que para quem já passou pela experiência a acha tão simples e, por vezes, banal, mas que para Marina, a menina em questão, é algo que a está consumindo.
Marina se vê rodeada por medos, angústias, expectativas que toda pessoa passa. Uns com grande intensidade, outros, nem tanto. Um misto de sensações ainda não experimentadas e que não lhe é familiar, nem habitual. Suas amigas tentam auxiliá-la nesta experiência.

Poderia ser mais um dos inúmeros filmes rasos sobre o universo adolescente, seus clichês e afins, não fosse a apresentação lúdica do contexto, como opta a direção, sem cair no lugar comum, tampouco no ridículo.

Quase impossível não se divertir e se identificar com a personagem. Quem nunca se viu treinando o primeiro beijo, seja com uma laranja, uma maçã, no próprio braço, numa lâmpada, no espelho ou num outro objeto qualquer que possibilite tal façanha?

Quem acompanha Marina, passa a vê-la por dentro, através de suas sensações sendo exteriorizadas. Tudo passa a ter uma dimensão gigantesca. Seus sensores estão à flor da pele. Os sons, os movimentos, os espaços e os gestos ganham uma outra proporção, que não a real. Para Marina, tudo está modificado, lento, microscópico.

Ela está disposta a passar pela experiência do primeiro beijo, mas não consegue disfarçar a timidez e o nojo, afinal será seu primeiro contato com a boca de outro. E tudo se torna salivação.
A sensação interior se dá pela saliva que cai e empoça no chão. Seja na cena em que Marina e o menino que a beija estão com seus tênis cobertos de saliva ou quando os dois aparecem ensopados. Sem falar na leveza que geralmente sentimos quando damos o primeiro beijo. Aquela impressão de que estamos passeando pelas nuvens, que o chão nos foi tirado subitamente. Tal sensação silenciosa e única é transposta através de um jogo metafórico e paradoxal.
Autoria: Everson Bertucci

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

UMA SOMBRA DO FUTURO - Resenha do curta-metragem "Passadouro", de Torquato Joel

O curta inicia com uma paisagem bucólica, mostrando um lugar simples, no meio do nada, aparentemente distante da vida urbana: a seca nordestina. É possível notar as galinhas, as cabras, e outros elementos da roça. Um lugar muito distante da realidade atual, do universo tecnológico e industrial vigente.

Tudo poderia ser belo e confortante, não fosse o espectador ser confrontado com uma cabra abatida para o corte logo a seguir. Ela está pendurada pelas patas traseiras e sem a pele – utilizada para dar origem a outros produtos. Sua carne, prestes a servir de alimento à família residente na casinha rural que se apresenta, pelo menos é o que dá a entender.

A imagem composta pela cabra morta é um tanto incômoda, pois podemos ver a carne ainda cheia de sangue, como se ela estivesse viva. Seus olhos abertos e meio tristes também impressionam. É através deles que o espectador é apresentado à dona da casa, que está no fogão à lenha preparando a comida, com movimentos lentos e rotatórios, combinando com a vida daquela família.

O rádio antigo, toca uma bela versão da música “Ave Maria” e emociona um senhor, possivelmente o dono da casa. Seus olhos são a prova disto. Ao seu lado, na parede, uma foto muito antiga, daquelas que parecem desenho, compõe o retrato da família, remetendo a uma outra era, onde as coisas eram outras, o mundo era outro, as pessoas eram outras... as descobertas também.

Os sinais de modernidade vão aparecendo gradativamente. O filho assiste ao filme do “Batman” na TV. A marca do boné também denota uma mudança e, por fim, a antena parabólica concretiza a entrada de outro mundo naquela casa. Há algo se transformando ali.

“Passadouro” traz uma visão nostálgica dos velhos tempos, uma alusão ao passado, um olhar pra dentro. Uma nova realidade invadindo a vida de gente simples, que sem perceber está sendo modificada. É como uma saudade de um tempo que ainda não passou, uma sombra do futuro.
Autoria: Everson Bertucci

quinta-feira, 16 de abril de 2009

RESENHA SOBRE O DOCUMENTÁRIO "NASCIDOS EM BORDÉIS"

“Nascidos em Bordéis” - Documentário
Por Everson Bertucci


“É preciso aceitar que a vida é triste e dolorosa. Só isso.” Ou “Não há uma coisa chamada esperança no meu futuro.” Será que alguma coisa pode ser feita por crianças que dizem este tipo de frase? Será que existe possibilidade de mudar suas vidas, suas realidades e o universo que as cerca? Até que ponto pode-se interferir num universo onde não há expectativa, tão pouco esperança? Estes são os desafios que Ross Kauffman e Zana Briski decidem encarar neste dolorido, emocionante, surpreendente, avassalador – entre outros tantos adjetivos – documentário. Eles lidam com possibilidades remotas e pouco prováveis de mudança, porém, possibilidades.
Com câmeras fotográficas nas mãos, Zana e Ross propõem a oito crianças, filhas de prostitutas, num território miserável da Índia – o bairro da Luz Vermelha - uma observação sobre o lugar em que elas vivem, seus costumes, o dia-a-dia familiar, as brigas, as decepções, os sonhos... e que elas mesmas retratem sua própria realidade. Através das fotos tiradas pelas crianças pode-se observar a devastação e a beleza de suas histórias, suas angústias em relação ao futuro, o modo como eles lidam com a infância, suas perspectivas de vida, assim como a descoberta de um novo mundo, um novo horizonte. Enquanto isso, os cineastas tentam traçar um futuro melhor para elas.
Por vezes tristíssimo e à beira do desespero, noutros momentos mais espirituoso e reluzente, cru e sensível, o documentário evidencia as débeis condições de vida da população daquele bairro, expondo em particular os dilemas de um grupo de crianças forçadas a vivenciar as complexidades da idade adulta desde muito cedo.
Mesmo as almas mais cínicas dificilmente resistirão a algumas contagiantes cenas com as crianças indianas, sobretudo nos episódios onde é claro o entusiasmo pelas potencialidades da fotografia e, por extensão, da arte em geral. Igualmente marcantes são os entraves colocados às tentativas de melhoria das condições de vida das crianças, visível nas sequências em que Briski se desdobra numa inquietante rede de atribulações burocráticas.


Direção, Roteiro, Produção e Fotografia: Ross Kauffman e Zana BriskiPaís/Ano de Produção: Índia/EUA - 2004Duração: 86 MinutosFaixa Etária: Livre
Lançamento: 2006
Prêmios Recebidos:
- Melhor Documentário: National Board Of Review- Prêmio da Audiência: Sundance Film Festival- Melhor Documentário: Los Angeles Film Crtics- Melhor Documentário: Oscar 2005