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domingo, 21 de março de 2010

Durabilidade e Frivolidade - conto

Rafael conheceu Jonas numa boate. Mal deu tempo de se atrair direito porque Jonas se aproximou de forma tão rápida que o primeiro beijo veio sem muito pensar. Bom o suficiente para continuar por muitos minutos. Jonas estava regido pelo álcool. Rafael, pelo romantismo de sempre e pela insistência em acreditar que ainda possa haver beleza nas ações das pessoas. Mas logo Rafael percebeu que o lance de Jonas era apenas diversão e sexo, mas naquele momento era conveniente aproveitar e se divertir enquanto durasse o efeito do álcool.


Jonas logo tratou de sentir de perto o quanto Rafael estava excitado. E ele realmente estava e a coisa foi esquentando tanto que logo estavam trancados no banheiro e o sexo foi apenas consequência. Após o ato, Rafael pensou que dali cada um seguiria seu rumo, como acontecia sempre, mesmo contra sua vontade. Mas foi surpreendido pela atitude de Jonas, que mudou bastante seu comportamento. Foi ficando mais carinhoso, atencioso, jovial. Foram para a pista e ficaram dançando a noite toda. Seus beijos foram embalados pelos mais empolgantes flashbacks.


Rafael sabia que estava consciente e como sempre ficou fantasiando uma relação posterior. Sabia que as chances eram pequenas, mas sempre preferiu acreditar nas possibilidades. Já havia se decepcionado em tantas outras histórias, mesmo assim nunca deixou de acreditar que assim como ele, deveria existir mais alguém no mundo que também estivesse procurando alguém para namorar, para curtir, e para dividir uma história. Não queria sair dali e pensar que sua chance estaria vindo de forma torta. Resolveu apostar, principalmente porque Jonas estava se entregando e parecia mesmo de verdade.


Continuaram dançando com mais alguns amigos de Jonas até que o dia amanheceu e tiveram que sair. Na rua, ficaram abraçados enquanto conversavam numa esquina. Rafael ouvia a conversa de Jonas e de seus amigos, também alcoolizados. Eles riam de tudo, falavam sem parar e mesmo se sentindo um estranho naquela situação, quis ficar e aproveitar os momentos bons que estava vivendo. Jonas continuou carinhoso e Rafael resolveu se dar uma chance. Aceitou de prontidão o convite de Jonas de irem a uma festa de aniversário com pessoas que nunca poderia encontrar numa outra situação.


No aniversário, foi recebido por Jonas com um beijo caloroso, um abraço forte e em seguida o deixou sozinho para que interagisse com as outras pessoas, mas Rafael não conseguiu. Ficava quieto nos cantos, disfarçava um sorriso para um, um gole de cerveja com outro, uma frase, um gesto leve. Mas, e Jonas? Se divertia e conversava com todos, menos com Rafael. Vez ou outra passava, dava um beijo e saía para curtir. Rafael se sentiu só, mas tentou compreender que esse era o jeito de Jonas. Mais tarde, eles se entenderam, foram para um quarto e deixaram o desejo tomar conta de si. Dormiram. No dia seguinte foram embora juntos. Poucas palavras. Era o fim, pensou Rafael.


Estava enganado. Logo que se separaram recebeu uma mensagem de Jonas, em seu celular. Era uma daquelas frases bonitinhas, capazes de destruir qualquer possibilidade de indiferença. Ficou feliz e retribuiu. E assim foram dezenas de mensagens durante toda a semana. Novamente se encontraram na mesma casa da festa do aniversário, só que agora ,com bem menos pessoas. Para tentar um entrosamento com o pessoal, resolveu tomar seu primeiro porre. O vinho mais vagabundo. Todos beberam, fumaram. Não queria acreditar que Jonas não era para uma pessoa apenas. Era do mundo.


Mesmo com todas as evidências, continuou acreditando que a história deles poderia ter continuidade pela força de seus beijos. Mesmo estranhando um pouco, Rafael curtiu o momento e procurou não ficar questionando muito. Dormiu num sofá qualquer sob o efeito do vinho. Acordou super cedo com a cabeça latejando. Ai, isso é que é a tal da ressaca, pensou interrogativamente. Mesmo depois de tudo, Rafael e Jonas foram embora juntos novamente. Rafael sempre se perguntando o que aconteceria após se separarem. Nem precisou pensar muito. Minutos depois seu celular apitou. Era mensagem de Jonas. Ficou feliz.


Continuaram se falando durante a semana. Não tocaram no assunto e marcaram uma balada na sexta. Foram juntos e Jonas mantinha sempre uma certa distância. Na boate, Jonas se demonstrou muito distante, embora estivessem juntos o tempo todo. Rafael não entendia por que Jonas dançava com todas as garotas da festa, se apresentava e ficava logo amigo de todas elas e o deixava em segundo plano. Várias garotas foram se aproximando e entravam na roda para dançar com ele. Rafael não sabia lidar direito com a situação e tentava disfarçar um sorriso, mas no fundo estava se sentindo sozinho. Jonas dava selinhos e dançava coladinho a todas. Mal sabia ele que Rafael estava querendo a mesma coisa.


Num momento, o casal foi para outro ambiente com duas garotas que Jonas tinha conquistado a amizade. Enquanto Rafael conversava com uma, Jonas conversava com a outra, até que Jonas a beijou na frente de Rafael, que não soube reagir. Não sentiu ciúme, sentiu-se só. Eles estavam juntos, e novamente Rafael tentou ficar bem perante aquela cena desagradável. Depois conversaram e Jonas disse que foi apenas um beijo e justificou: ela é mulher e estava carente! Jonas reafirmou que estavam juntos, mas que poderiam beijar mulheres, só não poderiam beijar homens. Rafael entendeu e como estava combinado, não se importaria mais.


De volta à pista, refletiu e chegou à conclusão que após aquela noite daria um basta e que não mais se submeteria a uma situação assim. Gostava muito de Jonas, mas teria que gostar mais de si próprio. Procurou se divertir também com outras garotas, dançou. O problema é que Jonas tinha uma vivacidade, uma energia e um jeito tão especial de tratar as pessoas que Rafael não sabia direito a que conclusão chegar. De repente, passa entre eles um jovem cadeirante. Uma moça empurrava a cadeira de rodas e as pessoas abriram caminho para ele passar. O rapaz estava super feliz, dançando em sua cadeira e Jonas não hexitou: começou a interagir com o jovem e os dois começaram a dançar.


Jonas segurou a mão do rapaz e os dois dançaram. Jonas rodava a cadeira, rodopiava, beijava a mão do rapaz. O cadeirante estava visivelmente encantado com a abordagem tão gentil. Rafael se sentiu desarmado. Como posso me deixar levar por tanta mesquinharia perante esse gesto tão nobre, se perguntava ele, que havia se deparado com o que de mais belo poderia encontrar em seu caminho. Possivelmente Jonas nunca saberá que aquele ato ficou imortalizado na cabeça de Rafael. Uma das cenas mais bonitas já vistas por ele. Tudo se tornou muito pequeno perante todas as outras coisas.


Eles voltaram pra casa juntos. Logo ao se separarem, a mesma dúvida de sempre: será que vai continuar? Dois minutos depois uma mensagem no celular sinalizava que sim. E outras e outras e outras. Até que Jonas sumiu por um dia. Ficou sem responder mensagens, sem se manifestar e Rafael percebeu que estava muito mais envolvido do que imaginava. Depois Jonas mandou uma mensagem com uma desculpa que Rafael não acreditou, nem questionou. Não se achou no direito, preferiu calar. E continuaram trocando mensagens carinhosas, envolventes. Dois dias depois marcaram um encontro.


Se encontraram e Jonas avisou Rafael que a garota que ele tinha beijado, naquela balada, também participaria do encontro. Tinham se tornado amigos. Rafael não soube direito o que fazer, nem tinha. Foram caminhando até onde haviam marcado e ao atravessar a rua Jonas disse que gostava muito dele, mas que deveriam ser apenas amigos. Rafael já havia tido todos os sinais possíveis e não quis acreditar neles. Não disse nada. A garota chegou, se cumprimentaram, foram para um bar. Conversaram civilizadamente. Depois de alguns minutos Rafael se despediu do casal e foi para sua aula sabendo que o mundo que o cerca não vai mudar, assim como sabia que esse mesmo mundo não o faria deixar de acreditar nas possibilidades de uma história de verdade. E seguiu caminhando.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

NOVA MESMA HISTÓRIA

Há muito tempo a avó foi ensimesmando e aos poucos, perdendo a memória. Não lembrava do dia anterior, da ação anterior, da palavra anterior.

Era preciso alguém que cuidasse dela, pois já não distinguia muito bem os objetos. Dava-lhes outros nomes, e era dada a achar que a água do vaso sanitário era encantada.


-- ela faz as coisas voltarem.


Também tinha ímpetos de querer pular a janela.

-- do lado de lá tem muita vida, dizia.


Puseram grades na janela.


Além desses cuidados especiais, a avó costumava contar todos os dias a mesma história: que foi casada com um general, teve treze filhos, que dois deles morreram na guerra como bravos heróis e que os girassóis lhe traziam uma grande tristeza.

Na família ninguém mais tinha paciência de ficar tomando conta dela. Ter de ouvir a mesma história várias vezes ao dia e se atentar para que não mexesse na água do vaso sanitário.
Henrique, de 9 anos, era o único que sobrara para cuidar da avó. Seus pais o obrigaram. Detestou a idéia, mas não havia escolha. Prometeram uma boa mesada.


-- você sabia que eu gosto de docinho? Perguntava a avó ao neto.


Ele não respondia. Ficava sentado entretido com os joguinhos do celular.

-- pois é, eu gosto demasiado de docinho.


Henrique nem ouve.


-- você nunca fala?


Silêncio.


-- como você se chama?


Meio irritado, responde.


-- Henrique.
-- ah, você fala sim. E tem uma voz bonita! E se fala, ouve. Vou te contar uma história.

E contava. Dia após dia a mesma história. Enquanto contava, se dirigia ao banheiro.


-- Vó, não vai mexer na água do vaso, viu?! É suja!


Ela parou na hora e ficou pensativa. Virou a cabeça na direção do neto, o olhou bem e disse:

- Vó?! Mas eu não sou sua vó. Te conheci agora.


E ficou espantada. Henrique, para não se estender no assunto...


-- Ah, é verdade. Eu devo estar ficando louco.


Ela até esqueceu que estava indo ao banheiro e voltou. Os dias passavam e ela contava para Henrique a mesma história, que entretido com seus joguinhos no celular, mal escutava. Até o dia em que foi tentar impedi-la de mexer na água do vaso sanitário e o celular caiu lá dentro e pifou.


Como não tinha mais como se distrair com seus jogos eletrônicos, começou a levar alguns brinquedos para não ter que dar ouvidos àquela história da avó. O primeiro, foi um caminhão de madeira.

-- que caminhão bonito você tem, menino. Me faz lembrar uma história. Vou te contar.


E começava a mesma história. Só que agora o caminhão fazia parte dela porque dizia avó que um de seus filhos teve um igualzinho.


Henrique gostou do que ouviu. Cada vez que ele trazia um brinquedo, aquela história que ninguém mais suportava ouvir ganhava uma nova roupagem e ficava mais e mais instigante. Foi assim com a bola, com o carrinho, com a peteca e com todos os outros brinquedos e objetos. E de todo dia ela perguntar como se chamava, Henrique passou a inventar nomes. Davi, Lucas, Nivaldo...


Os nomes também despertavam novas ramificações naquela velha história. Com o tempo, o menino começou a perceber que o que a vó contava fazia parte da história de seu pai, de seus tios, de seu avô. Quando perguntava seu nome, ele passou a dar o nome de um parente e assim essas novas histórias iam entrando na história.


-- você me faz lembrar meus netos e meus filhos.
-- e onde eles estão?
-- morreram
-- todos?
-- sim. Não sobrou nenhum.
-- morreram de quê?
-- morreram de não mais gostar de mim.


Henrique parou por um tempo e ficou pensando.


-- se você quiser eu posso ser seu neto.
-- melhor não. Não quero que você morra.


Ela percebeu que ele ficou tristinho.


-- mas pode me chamar de vó, se quiser.
-- tá bom. Vamos brincar na pia do banheiro?
-- eu faço os barquinhos.
-- eu quero ser o comandante!
-- só se eu puder ser a mocinha!

Não foi difícil para Henrique perceber que era preciso morrer a cada noite, ao despedir-se da avó, para renascer no dia seguinte com outro nome e trazendo mais objetos para que pudesse ouvir uma nova mesma história.


Autoria: Everson Bertucci

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

OITO VELHINHAS - conto

Nove ratinhos nasceram numa só ninhada no porão escuro de uma casa onde moravam nove velhinhas que cuidavam de nove galinhas. As velhinhas eram muito supersticiosas e acreditavam que quando uma delas morresse e o número nove fosse desfeito, a paz e a tranqüilidade não mais reinaria naquele lar onde o nove era um amuleto. Nove colheres, nove garfos, nove facas, nove cadeiras, nove xícaras, nove gatos, nove escovas de dente, nove camas, nove... nove... nove...
Suas visitas eram agendadas sempre obedecendo a regra. Cada uma só poderia receber uma única pessoa por visita e todas no mesmo dia e no mesmo horário, totalizando nove visitadores por vez. Caso houvesse uma desistência, cancelamento geral.

As velhinhas nunca souberam e nem poderiam saber que coincidentemente nove ratinhos nasceram em seu porão. Se soubessem, certeza que cuidariam para que suas vidas fossem preservadas com afinco. Do lado de fora da casa, os nove gatos salivavam com o cheiro forte de carne nova. Mas o porão era fechado a nove chaves e não havia buracos grandes em que pudessem entrar e se deliciar com a ninhada. Os dias foram passando e os ratinhos cresceram um pouco.

As nove eram muito religiosas e apegadas a diversos santos. Passavam tardes e noites orando. Dois detalhes as diferenciavam de outras senhoras. Primeiro, cada uma era devota de nove santos distintos e a eles faziam seus pedidos fervorosos. Segundo detalhe, o pedido feito aos nove santos. Desejavam a mesma e única coisa: que a morte viesse o mais breve possível e as levasse.
Mas elas não queriam morrer juntas, não era esse o desejo. Era morrer primeiro, era ser a primeira a morrer, pois enquanto as nove estivessem vivas, não teriam problema algum, mas a partir da morte da primeira, o caos se instalaria na casa para as outras e toda espécie de pestilências e mau agouro cairia sobre as oito. Apenas uma delas teria o privilegio de morrer tranquilamente: a primeira.

Um dos ratinhos nasceu cego. Vivia perdido no ninho e vez ou outra era pego pela mãe andando perdido pelo porão e seus pequenos buracos. Numa dessas andanças ele foi parar na cozinha onde as nove velhinhas tomavam seu café da manhã enquanto um dos gatos, o mais distraído, dormia embaixo da mesa. Andando pra lá e pra cá, o ratinho meio tonto - pois tinha apenas poucos dias de vida e nenhuma facilidade em identificar o mundo onde foi jogado - ficou tentando identificar algo familiar.

Uma das velhinhas levantou para pegar um copo de água no filtro e sem querer pisou no ratinho, escorregou, bateu com a cabeça na quina da mesa, caiu e morreu. O gato acordou com o barulho, percebeu os restos do pobre infeliz e saiu lambendo o que sobrou daquele saboroso café da manhã frente ao desespero das outras oito velhinhas condenadas por nao ter sido a escolhida pela morte que resolveu passar pela casa às nove horas, nove minutos e nove segundos do dia nove do nove de dois mil e nove.
Autoria: Everson Bertucci

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

AQUELA MULHER - conto


Olhei pro lado e vi Eulália. Até então não sabia seu nome. Só soube muito depois. Aparentemente tínhamos o mesmo propósito.

-- Vai se matar também?
-- Tô pensando, disse-me ela.
-- A vida é uma droga, né?!

Eulália pensou um pouco e disse:
-- Ah, a vida até que é bacana, o problema são as pessoas.
Passei a refletir sobre o que ela disse e lhe dei razão.

-- Será que dói muito quando se cai lá embaixo?
-- Dizem que dói... mas acho que nem dá pra saber direito. É tão rápido. O problema é se sobreviver.
-- Ah! Mas será que se sobrevive?
-- Eu soube de um cara que sobreviveu.

Fiquei aterrorizado.

-- Tá vivo até hoje. Parece que tava passando um caminhão de verduras na hora, ele caiu em cima e amorteceu a queda.
-- Que azar! E será que ele nunca mais tentou?
-- Ah, não! Deve ter ficado traumatizado. Mas deve ser uma super adrenalina pular dessa altura, já pensou?
-- Ah, não! Tenho medo de altura.
-- É a sua primeira vez?
-- Terceira
-- Sério?
-- No duro.
-- Por quê?
-- Estou apaixonado por uma mulher que não me ama.
-- E pelo jeito ela é linda!
-- Nada. É feia, chata, cheia de manias e mal humorada. Mas me apaixonei por ela. Não sei explicar.
-- Sei. E por que não se matou das outras vezes?
-- Na primeira vez porque uma velhinha percebeu que eu ia me matar e disse que se eu fizesse aquilo Deus ia me mandar direto pro inferno.
-- Desistiu por causa disso?
-- Ela foi bem enfática, me assustou.
-- E como ela era?
-- Velha! Gorda, baixinha, cabelos brancos... tava com uma roupa bonita!
-- branca?
-- Não. Era roxa. Por quê?
-- Ah, sei lá, se estivesse de branco, podia ser Deus disfarçado.
-- Que ideia!
-- Vai saber.
-- Será que podia ser Deus?
-- Não. Você não falou que ela estava de roxo?
-- Ah, é verdade!
-- Será que era uma bruxa?
-- Ah, não. Era feia, mas não tinha cara de bruxa.
-- Que ingenuidade a sua. Hoje em dia bruxa pode ter qualquer cara, nariz bonito e tudo.
-- Ah, é? Nem imaginava.
-- E da segunda vez, por que desistiu?
-- A velhinha apareceu de novo e disse a mesma coisa.

Eulália fica meio desconcertada e olha para os lados como que preocupada se alguém se aproxima.

-- Será que ela vai aparecer de novo?
-- Acho que não. Já tô aqui há mais de meia hora. Das outras vezes ela sempre aparecia rápido.
-- E por que você não pulou ainda?
-- Ah, tava esperando pra ver se ela aparecia. E você, por que não pula logo?
-- Não tenho coragem. Acha que a velhinha ainda vai aparecer?
-- Acho que não.
-- Talvez ela tenha vindo disfarçada.
-- Creio que não.
-- Vai pular mesmo?
-- Vou. A velhinha não apareceu.

Eulália me estende a mão e completa:

-- Desiste.
-- Não posso. Tá doendo muito.
-- Desiste. Vem comigo.

Me sinto intrigado com aquela mulher misteriosa e pergunto:

-- Quem é você?

Eulália me responde bem enfática:
-- Eu sou a velhinha e Deus vai te mandar direto pro inferno se pular dessa ponte.

Ficamos nos olhando fixamente por alguns segundos. Entendo a brincadeira e caímos na gargalhada. Agora sim, tínhamos o mesmo propósito.
E dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!
Autoria: Everson Bertucci

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A ANGÚSTIA - conto

Pensou que acordar balzaquiana seria algo terrivel. Tinha razão. Decidiu passar a noite no cinema. Foram três filmes pela madrugada. Um após o outro, quase sem interrupção. Pelo menos enquanto os filmes passavam não sentia nada. Suas primeiras horas, com a nova idade, foram comuns. Nada de novo, inclusive o fato de ter de lembrar alguns amigos que era seu aniversário e que tinham que fazer aquelas velhas cerimônias de abraço-beijo-parabéns! Os filmes eram bons, as companhias, idem.

Fim da maratona. Um café. Risos. Abraços. Despedida. Do lado de fora do cinema, pelo vidro, o sinal da chuva no asfalto. Ainda havia uma leve garoa. São Paulo. Decide ir para casa caminhando, para refletir, processar os filmes. Apesar de ter passado a noite em claro, ainda havia muita energia e excitação.

Entra por uma rua, por outra... a chuva começa a engrossar. Até pensa “poxa, Deus, hoje é meu aniversário!”. Ele devia ter mais o que fazer. Não pára. Pensamentos. Logo percebe a presença de alguém se aproximando. Fica com receio, mas continua andando. A chuva não cessa. É do sexo feminino, atraente, misteriosa. Está do outro lado da rua e observa. Não se encaram.
A chuva impede que a manhã se aproxime. Mesmo chovendo, a cidade movimenta-se. Mendigos nas calçadas. Transeuntes. Buzinas. E aos poucos todo aquele clima a domina. Várias imagens vem à tona. Adolescência. Ganhos e perdas. Erros e acertos. O choro é inevitável. Do outro lado, a outra a segue.

A vantagem de chorar na chuva é a impossível distinção entre o que é lágrima e o que é chuva. Se misturam. Mas a outra parece distinguir.

Ela sempre procura um motivo para chorar. Não tem o hábito, mas gosta. O dessa ocasião, era pela partida de uma amiga, para longe. As lembranças do passado, as vivências, as descobertas. Mas tudo poderia ser apenas um pretexto para o choro se iniciar, um pretexto para a reflexão. No momento é doloroso, mas a sensação posterior de alívio e leveza reconforta.
A presença da outra que a segue é incômoda. Não há medo, pois existe uma familiaridade ali, embora indecifrável. Já perto de sua casa o choro passa. A outra faz um aceno e segue por outra rua. Desaparece.

O casaco já estava todo molhado, mas pela espessura não atingiu sua pele. Está muito frio. Chega em casa, entra, se seca adequadamente e vai para debaixo dos cobertores.

As gotas fortes no telhado prenunciam a chuva que jamais cessará.

Autoria: Everson Bertucci

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

FORMA - conto

-- Mãe, quando o pai foi embora naquela ocasião eu quis muito ter te abraçado.
-- Mas você me abraçou, filha.
-- Não, mãe, eu sei que o tempo passou, mas eu lembro que naquela noite eu não sabia como agir, o que dizer, o que sentir. Eu apenas fui pra cozinha e te passei um café.
-- Minha querida, a forma é só um detalhe.
Autoria: Everson Bertucci

sexta-feira, 24 de julho de 2009

NOVA MESMA HISTÓRIA - conto

Há muito tempo a avó foi ensimesmando e aos poucos, perdendo a memória. Não lembrava do dia anterior, da ação anterior, da palavra anterior. Era preciso alguém que cuidasse dela, pois já não distinguia muito bem os objetos. Dava-lhes outros nomes, e era dada a achar que a água do vaso sanitário era encantada.

-- ela faz as coisas voltarem.

Também tinha ímpetos de querer pular a janela.

-- do lado de lá tem muita vida, dizia.

Puseram grades na janela.

Além desses cuidados especiais, a avó costumava contar todos os dias a mesma história: que foi casada com um general, teve treze filhos, que dois deles morreram na guerra como bravos heróis e que os girassóis lhe traziam uma grande tristeza. Na família ninguém mais tinha paciência de ficar tomando conta dela. Ter de ouvir a mesma história várias vezes ao dia e se atentar para que não mexesse na água do vaso sanitário. Henrique, de 9 anos, era o único que sobrara para cuidar da avó. Seus pais o obrigaram. Detestou a idéia, mas não havia escolha. Prometeram uma boa mesada.

-- você sabia que eu gosto de docinho?, perguntava a avó ao neto.

Ele não respondia. Ficava sentado entretido com os joguinhos do celular.

-- pois é, eu gosto demasiado de docinho.

Henrique nem ouve.

-- você nunca fala?

Silêncio.

-- como você se chama?

Meio irritado, responde.

-- Henrique.
-- ah, você fala sim. E tem uma voz bonita! E se fala, ouve. Vou te contar uma história.
E contava. Dia após dia a mesma história. Enquanto contava, se dirigia ao banheiro.

-- Vó, não vai mexer na água do vaso, viu?! É suja!

Ela parou na hora e ficou pensativa. Virou a cabeça na direção do neto, o olhou bem e disse:

- Vó?! Mas eu não sou sua vó. Te conheci agora.

E ficou espantada. Henrique, para não se estender no assunto...

-- Ah, é verdade. Eu devo estar ficando louco.

Ela até esqueceu que estava indo ao banheiro e voltou. Os dias passavam e ela contava para Henrique a mesma história, que entretido com seus joguinhos no celular, mal escutava. Até o dia em que foi tentar impedi-la de mexer na água do vaso sanitário e o celular caiu lá dentro e pifou.

Como não tinha mais como se distrair com seus jogos eletrônicos, começou a levar alguns brinquedos para não ter que dar ouvidos àquela história da avó. O primeiro, foi um caminhão de madeira.

-- que caminhão bonito você tem, menino. Me faz lembrar uma história. Vou te contar.

E começava a mesma história. Só que agora o caminhão fazia parte dela porque dizia avó que um de seus filhos teve um igualzinho.

Henrique gostou do que ouviu. Cada vez que ele trazia um brinquedo, aquela história que ninguém mais suportava ouvir ganhava uma nova roupagem e ficava mais e mais instigante. Foi assim com a bola, com o carrinho, com a peteca e com todos os outros brinquedos e objetos. E de todo dia ela perguntar como se chamava, Henrique passou a inventar nomes. Davi, Lucas, Nivaldo...

Os nomes também despertavam novas ramificações naquela velha história. Com o tempo, o menino começou a perceber que o que a vó contava fazia parte da história de seu pai, de seus tios, de seu avô. Quando perguntava seu nome, ele passou a dar o nome de um parente e assim essas novas histórias iam entrando na história.

-- você me faz lembrar meus netos e meus filhos.
-- e onde eles estão?
-- morreram
-- todos?
-- sim. Não sobrou nenhum.
-- morreram de quê?
-- morreram de não mais gostar de mim.

Henrique parou por um tempo e ficou pensando.

-- se você quiser eu posso ser seu neto.
-- melhor não. Não quero que você morra.

Ela percebeu que ele ficou tristinho.

-- mas pode me chamar de vó, se quiser.
-- tá bom. Vamos brincar na pia do banheiro?
-- eu faço os barquinhos.
-- eu quero ser o comandante!
-- só se eu puder ser a mocinha!

Não foi difícil para Henrique perceber que era preciso morrer a cada noite, ao despedir-se da avó, para renascer no dia seguinte com outro nome e trazendo mais objetos para que pudesse ouvir uma nova mesma história.

Autoria: Everson Bertucci

quarta-feira, 13 de maio de 2009

ESPOSA CONSUMISTA, ESPOSO FALIDO

Não sei se minha mulher é muito boa em me preparar armadilhas ou se sou um homem muito fácil de enganar. O prazer dela é acabar com o meu, principalmente quando é dia de futebol e cervejada. Eu sempre prometo nunca mais pisar na rua Oscar Freire em sua companhia. Uma das besteiras que fiz foi verbalizar esta afirmação a ela numa de nossas discussões.

É muito difícil dizer não a uma mulher, principalmente quando ela é dona de uma beleza hipnotizante casada com um poder particular de persuasão e uma capacidade única de me satisfazer sexualmente. Toda vez que ela vem com seus métodos femininos e me conduz até à rua Oscar Freire, ouço uma voz me dizer “prepare-se para ser devorado, mestre dos idiotas”. Não sei se essa voz é muito tímida e retraída ou se faz inexistir perto do turbilhão de frases e bondade advindas da minha tão falante esposa.

Vira esquina daqui, dali, de acolá... Quando vi, estávamos na Oscar Freire. Entramos numa loja de perfumes e ela quis sentir o cheiro de todos. No fim, saí intoxicado. Minha mente mal respondia. Passamos em frente a uma loja.

-- olha, que vitrine bem preparada! Veja aquele jogo de luz como valoriza o tom de cada vestido. Não é admirável essa capacidade que os vitrinistas têm? Ah, se eu tivesse mais tempo livre, com certeza, seria vitrinista. É de uma precisão quase divina. Eu fico me imaginando rodeada de todos esses objetos e tendo que escolher a maneira mais adequada de colocá-los para melhor atrair os olhares dos clientes. Não é fascinante?

Mal soltei um resmungo.

-- adoro quando você concorda comigo. Sou mesmo uma sortuda por ter um marido tão especial.

E fala com uma convicção e doçura que no momento me parece a coisa mais inofensiva do mundo.

-- vamos entrar por um minuto pra gente dar uma olhadinha mais de perto, amor?
Eu nunca consigo responder.

-- olha o deslumbre desse vestido, querido. Não é um fascínio?

Ao me ver, o detector de grandes idiotas que o vendedor tem é acionado.

-- deve ficar perfeito em você, diz o vendedor à minha esposa.
-- você acha?
-- não tenho a menor dúvida, complementa o vendedor.
Estava armada a arapuca.

Já vestida...

-- nossa, amor, que coincidência esse vestido ter ficado perfeito no meu corpo. Você viu que vendedor simpático?! Ele tinha razão, ficou ótimo!

Não sei se era o fato dela estar bem vestida, feliz e com pose de mulher fatal ou se era o efeito alucinógeno dos perfumes, ou ainda, a fato dela viver falando sem parar... o fato é que todos os zeros das etiquetas se tornaram inexistentes pra mim. Não conseguia ouvir, nem ver, nem pensar.

-- dois mil e duzentos reais, amor! Nunca vi um vestido tão barato!
-- nossa, barato mesmo! Vinte e dois reais e um bom preço para se pagar num vestido, minha querida.

Este era o efeito.

E lá vieram os sapatos, as bolsas, os cintos... rindo e conversando diretamente comigo. Eram os seres mais encantadores e simpáticos do mundo. Tudo do mais fino, sofisticado e caro. Passo o cartão de crédito e saímos felizes, rumo ao carro.
No caminho, sinto-me raciocinando novamente. Medo. Tento não acreditar na quantidade de sacolas que estou carregando. No rosto da minha esposa a felicidade transborda. Era o sinal. Ela conseguiu de novo o que queria. O efeito tóxico dos perfumes estava passando, minha esposa já não falava tanto e o efeito hipnótico estava findo.

Eu pensava, “minha querida, não esqueça de achar um eufemismo bem bonito para foi um trouxa ao mandar escrever a última frase do meu obtuário”.
-- está tão calado, querido! O que foi?
Autoria: Everson Bertucci

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O MILAGRE DO VÔO

Essa é a história de Dona Tiana. Mulher sofrida. Criada no interior, num vilarejo chamado Mirante dos Montes. Era conhecida por todos do vilarejo. Tinham medo dela e a isolaram. Ninguém ousava dirigir-lhe palavra. Detestavam-na. Diziam que era malfadada, monstra, matadora de anjo. O que todos falavam era que Dona Tiana havia, há muito, matado seu filho. Nunca acreditaram na verdade. Nunca quiseram acreditar.
Dona Tiana sofria muito com a morte do filho. Vivia apenas por viver. Ia levando – como dizem nos vilarejos. Nunca percebeu nada em relação às pessoas. Acreditava em Deus e esperava a morte. Até que, depois de anos, quando menos esperava... engravidou. O marido de Dona Tiana não quis saber. O medo de perder outro filho era insuportável. Acovardou-se.
-- Teu pai foi viajar, mas ele volta, viu Nenê!? Ele volta – dizia ela, para o ventre.
Era menos doloroso.
O Nenê nasceu. Fraquinho, minguadinho. Dona Tiana comia o que conseguia plantar e como não tinha ninguém... teve sorte do Nenê ter nascido com vida. E assim, viviam doentes, mãe e filho. Acreditava também nas ervas que plantava, mas o caso se agravou. E numa noite de Natal ela resolveu levar seu Nenê para a cidade, para gente entendida cuidar. Foi de barco (único transporte existente). Com seu terço no pescoço e o Nenê nos braços - todo cobertinho, para não piorar ainda mais – seguiu para a capital.
O barqueiro se convenceu em levá-la de graça, por pena da criança. Fosse por ela... que morresse! Foi logo cumprimentando todo mundo, sempre com seu jeito alegre, de bem com a vida. Depois que nascera o Nenê nunca mais se permitiu um dia de tristeza. Ele era sua vontade de viver apesar da doença, das febres, da fome, de tudo que há de pequeno nesse mundo. Sua esperança era maior que qualquer doença, que qualquer mesquinharia humana.
O primeiro a cumprimentar Dona Tiana foi um bêbado. Um mendigo maltrapilho, que na bebedeira conversava com seu único amigo. Conversavam muito, brigavam até, mas não se separam. Todo mundo estranhava aquilo tudo. Ninguém via o tal amigo, somente o bêbado. Ninguém via o invisível.
-- Louco!
A partir de então a cidade passou a não vê-lo, assim como não viam Dona Tiana. E o bêbado conversava muito com seu amigo invisível, que dizia ser Papai Noel.
Dona Tiana sentou-se ao lado de uma jovem, que pelos trajes - via-se, claramente - não era dali. Nem sequer olhou para Dona Tiana. Não a conhecia, nem queria. Estava com raiva. Tinha vindo passar o natal com uma tia, mas não suportou o tédio e o nada-que-fazer do interior, por isso voltava. Além de tudo, estava muito perturbada por estar no mesmo barco que um bêbado. Até tentou sair do barco, mas o barqueiro foi bem claro.
-- A próxima é só amanhã.
Foi obrigada a seguir viagem.
-- Tudo, menos passar a noite nesse lugar – murmurou a jovem.
Na ponta do barco, um rapaz, está parado, observando o que acontece. Antes que todos entrassem, ele havia acendido velas em torno do barco e se posicionara na ponta, de onde observava tudo. Tinha um olhar fixo. Parecia hipnotizado por tudo ao seu redor.
Percebendo que a jovem não era do vilarejo, Dona Tiana perguntou:
-- A moça mora lá na capital?
A jovem limitou-se a fazer apenas um sinal positivo com a cabeça.
-- É bonito lá, né? Um dia ainda vou morar lá com meu Nenê... ver aqueles prédio, aquelas coisa bonita.
Ela ajeita o Nenê no colo e se dirige à jovem de novo.
-- A moça é bonita. Tem parente aqui na vila?
Mais uma vez o sinal afirmativo com a cabeça.
-- Veio passear?
-- Vim visitar uma tia – disse a jovem, rompendo o silêncio.
-- Quando o marido voltar, vamo morar lá na capital. Ele foi pro Rio de Janeiro, tentar a vida lá, mas ele volta qualquer dia desse. Ele volta. Volta pra conhecer o Nenê e dá uma vida melhor pra nós na cidade grande. A vida aqui é um pouco sofrida.
Nota-se em sua voz que sofre uma certa perturbação, mas não deixa isso abatê-la. Muda logo de assunto.
-- Tá bonita a noite, né? Tá fazeno uma lua bonita.
-- Tá bonita, mesmo. Viva a noite de natal! Viva o Papai Noel! Viva! – diz o bêbado, num excesso de euforia.
-- A moça tem filho?
-- Não.
-- Eu tive dois. Esse e um outro. Tão bonito. Nunca vi uma criança tão bonita como ele. Sabe aquelas criança que de tão bonita, tão bonita, parece até que num é desse mundo?! Assim era o meu menino, tão bonito que chega dava orgulho.
Enquanto fala do filho, seus olhos brilham.
-- E tão calmo, tão carinhoso, cuidadoso que só ele, nem parecia criança. Uma vez ele disse que tava com vontade comer pamonha de goiabada, numa época que não tinha milho em lugar nenhum. Muito menos goiabada, que é caro. Mas ele queria. Nesse dia de tardinha, que eu olhei pro portão de casa, ele tava sentadinho no chão mastigano alguma coisa. Que eu cheguei perto pra ver o que era, adivinha? Era uma pamoinha de goiabada bem quentinha.
Todos já estavam envolvidos com a história e com a forma que Dona Tiana contava. Pouco a pouco, inconscientemente, a história de Dona Tiana estava chamando a atenção daquela jovem.
-- Ele disse que uma moça tava passano e deu a pamonha pra ele. Eu corri na rua e só vi uma mulher de longe, de cabelo bem grande e com uma sacolinha na mão. Não deu tempo nem de ver quem era.
-- Fica quieto, Papai Noel, deixa ela contar – dizia o bêbado ao amigo invisível.
O rapaz, na ponta do barco, havia até abaixado para ouvir. Compenetrado nos olhos daquela mulher.
-- Outro dia, tinha um enteado meu lá em casa, criança também, eles tava brincano no quintal. E em sítio, cêis sabe: tem galinha, tem porco, boi, tudo que é tipo de bicho. Meu enteado pegou uma pedrinha na mão e tacou com tudo na cabecinha dum patinho. O bichinho esperneou, estrebuchou e logo ficou durinho no chão. Meu menino ficou só olhano. Eu nem briguei. Criança! Nem sabia o que tava fazeno. Meu menino foi até o patinho, colocou ele entre as mão, no quentinho, e quando ele abriu... o bichinho começou a se mexer. No fim do dia já tava bãozinho. Ninguém falou um isto que fosse. Tudo as coisa que ele falava ou queria, sempre acontecia. Um dia ele disse que ia voar. Eu nem liguei. Todas criança tem dessas coisa que vai voar. Ele disse que ia voar pro céu, o danado.
Dona Tiana não se contém de emoção, respira fundo e silencia. Só se ouve o barulho das águas.
-- E então?...
Dona Tiana ajeita o Nenê no colo e prossegue.
-- Na noite de natal daquele ano, eu tava assano um pedaço de porco pra gente cear, quando percebi que tava tudo quieto por demais. Procurei na casa inteira e não achei o menino. Corri pra fora com a lamparina, que nem uma doida e quando eu olhei pra cima, ele tava em cima do telhado com os bracinho aberto. E antes memo que eu pudesse gritar... ele voou... meu menino voou... voou e nunca mais voltou. Se num tivesse voado, hoje ele seria um moço feito.
A jovem seca discretamente uma lágrima, o rapaz apenas ouve e o barqueiro continua remando, não acredita nessas histórias. Para ele só existia uma verdade; ela tinha matado o filho, o resto era tudo invenção.
-- Tudo isso aconteceu numa noite de natal, como essa, moça.
O bêbado lutava contra o sono para continuar ouvindo Dona Tiana. Porém, continuava a falar com seu amigo invisível – o Papai Noel – como ele mesmo dizia.
-- Presente? Que Presente? Ah! Tá, eu falo. Olha, ele tá dizeno que vai dar um presente pra senhora nesse natal – dirigindo-se a Dona Tiana.
Estava cada vez mais louco, pensaram.
-- Ele tá dizeno que a senhora vai gostar muito – foi só dizer isso e ser vencido pelo sono.
A jovem, assim como o rapaz, estava muito comovida com a história e se sentiu muito pequena e mesquinha diante daquela mulher.
-- Nossa! Que história! Como a senhora suportou tudo isso? Eu não teria agüentado.
Antes de responder, Dona Tiana pede à jovem que segure o Nenê para que possa pegar a mamadeira dele e a prepara, enquanto diz toda orgulhosa:
-- Ele não era pra esse mundo, não. Era uma criança especial. Não ia conseguir viver aqui, moça. Demorou, mas hoje eu entendo que ele precisava voar.
E olhando bem dentro dos olhos daquela jovem, perceptivelmente fragilizada:
-- Tem gente que precisa voar, moça. E ele voou.
Ao ouvir isso, a jovem descobre o rostinho do Nenê, para vê-lo, e percebe que ele está morto. Involuntariamente, solta um grito.
-- Que foi, moça? Tá passano bem?
O bêbado se mexe, mas o sono é mais forte que o grito. O barqueiro até pára de remar por alguns segundos. O rapaz continua calmo.
-- O seu bebê é muito bonito, mas ele está morto.
O barqueiro volta a remar. Mais um morto nas mãos daquela louca, pensava ele.
Dona Tiana deixa cair a mamadeira no chão e pega bruscamente o Nenê do colo da jovem.
-- Deixa de brincadeira, moça. Isso é coisa que se diga? Ele não é bonito, não. Meu Nenê é feio e só tá com um pouco de febre. Bonito era o outro.
Notando a mamadeira caída, o rapaz a envolve entre as mãos.
-- Minha senhora, o seu bebê está morto.
-- Meu Nenê num tá morto, não, moça. O meu marido vai voltar, meu Nenê vai ficar bãozinho e vai ser tudo como era.
Elas discutem. A jovem tem certeza que o Nenê está morto. Ela sentiu seu pequeno corpo gelado, duro.
No meio daquela discussão, o rapaz volta para o ponta do barco e fica olhando para o pequeno bebê morto.
-- Eu sei que é difícil, mas o seu bebê foi pro céu, como o outro.
-- A moça tá doida. Meu Nenê não vai pro céu... não agora. Num vou deixar – pega a mamadeira. – mama, meu Nenê, mama.
E no ápice do seu desespero:
-- Mama, vamo mamar um pouquinho? Mostra pra moça que o Nenê tá bãozinho, mostra. Mama, por favor. Ele vai mamar, cêis vão ver.
A jovem, sem saber o que fazer, começa a chorar. Sua vontade é de abraçar aquela mãe.
-- Mama, por favor, mama. Mama, pelo amor do Pai, todo misericordioso, eu te imploro, meu Nenê, mama. Mama pra sarar, mama. Se o Nenê num mamá logo, o leite vai acabá azedano.
E o Nenê, a razão de viver de Dona Tiana, começa a mamar.
-- Mas ele estava...
-- Dormino, moça. Dormino como um anjinho.
O rapaz se levanta, sobe na ponta do barco, se equilibra nas pontas dos pés e... definitivamente, voa.
As velas se desfazem ao som de uma cantiga de ninar, sussurrada por Dona Tiana.

Autoria: Everson Bertucci

IRREAÇÃO

Hoje, fui vítima de uma eventualidade. Ou não? Puxaram minha sacola na rua. Pensei ser um amigo brincando.
-- Passa a bolsa, meu chapa, senão te pipoco todo. Não tô aqui pra brincadeira, não. Anda! Anda! Anda! Vamo logo, maluco, passa essa sacola pra cá, que é melhor pra ti.
Não era um amigo. Puxei a sacola para junto de meu corpo.
-- A gente não tá pra brincadeira, passa logo a sacola, pô!
Eram dois. Fizeram de suas palavras uma metralhadora de ameaças intimidantes. Não dei a sacola que eles queriam. Eu puxava de um lado e um deles, do outro.
-- Não vou dar. Isso não é meu.
Era meu sim. Mas eu não ia dar. Tinha comprado naquele dia. Uma jaqueta que eu paquerava há dois meses e que levaria três para pagar.
Com uma agilidade impressionante, o que tentava me tirar a sacola percebeu e retirou minha carteira do bolso sem que eu pudesse deter. Ah, mas ele foi bonzinho, retirou o pouco dinheiro que tinha e me devolveu a carteira.

-- Passa logo a sacola, senão a gente te mata.
-- Então mata, seu escroto. Só assim pra levar o que é meu. Filho da puta! Socorro! Socorro! Socorro! Eles estão me matando. Socorro!
Dei um chute certeiro no saco do que me abordou.
-- Ainda vai querer minha sacola seu verme?
Uma cotovelada entre o olho e o nariz do outro. Tenho certeza que ele nunca mais vai esquecer. As pessoas que passavam, percebendo tudo aquilo, desceram de seus carros, bicicletas e motocicletas e vieram me prestar socorro. Uma senhora que passava se revoltou e deu uma bolsada em cada um deles. Um jovem acabou de quebrar o nariz que eu havia começado. O pessoal que estava no ônibus desceu e começou a gritar e ao mesmo tempo chutar aqueles dois que já estavam envoltos em sangue. Tiramos a roupa deles e deixamos expostos na calçada como devem ficar as carnes putrefatas. Depois começamos a cuspir neles. Precisavam sentir a chuva ácida de nossas salivas sobre seus corpos. A polícia, os bombeiros e uma ambulância chegaram muito rapidamente. Contiveram (?) a multidão. Os enfermeiros arrastaram os dois até a ambulância, os jogaram sobre a maca e saíram. Os policiais ficaram e parabenizaram todos nós pelo ato de bravura e coragem. Os bombeiros vieram pessoalmente me cumprimentar e todos aplaudiram a ação. Aos poucos a ordem estava de volta e o sangue no chão ficou como registro.

No que eu colocava a carteira de volta no bolso, ele aproveitou a minha distração e arrancou- me a sacola. Se eu não estivesse com uma pasta na outra mão ele não teria conseguido. O outro ainda quis me tirar a jaqueta que eu estava vestindo.
-- Tiro porra nenhuma!
Saíram correndo. É tudo muito rápido e os pensamentos muito lentos, embora os flashes que roda na cabeça tenha uma velocidade quase inexplicável nestas ocasiões. Talvez, justamente por isso: a lentidão e a cegueira. Não se registra muita coisa.
Seria incapaz de reconhecer aqueles dois rostos, mas registrei perfeitamente o rosto da mulher que estava parada na porta do bar, a expressão facial do rapaz que passou interrogativo e os olhares curiosos de dentro do ônibus parado no semáforo.
Com o sol - que, finalmente, resolveu aparecer naquela tarde bonita - o silêncio de uma avenida movimentada.

Autoria: Everson Bertucci

PEQUENAS PEDRAS

Com doze anos, numa discussão com o estranho, decidiu que aos dezoito sairia de casa. Necessitava lidar com o novo, com o desconhecido, queria tentar não ser como os de seu rededor. Só não sabia que... melhor começar de antes. Sete anos, foi aí a primeira surra, o primeiro xingamento. Diabo. Capeta. Menino correndo. Pai atrás com um cinto. Raiva. Dor. Choro.
Mas este ainda não é o começo. Na ausência do pai, era costumeiro a criança dormir com a mãe. Quando, na madrugada, este chegava, apenas um leve toque na cama fazia o pequenino acordar e correr assustado para o seu quarto, embora só tivesse três anos e muito medo da escuridão. Ah, ainda aos três, uma imagem: em meio às lágrimas da família, o menino corre sorridente em volta de um caixão de madeira ao brincar com pedrinhas com outros de sua idade.
Quando houve a decisão, foi para nunca mais vê-lo. Perguntava à mãe sobre a gravidez, a dieta, como nasceu. Respostas convincentes demais. Nenhuma pista. Filho dela com outro homem? Troca na maternidade? Adoção? Paranóia. Todos os detalhes eram confirmados pelos familiares, inclusive o detalhe de que mãe e filho perderam muito sangue e quase morreram na mesa de parto. Questionou os antigos namorados, tentou descobrir um possível amante. Nenhum vestígio.
Com um ano e meio tinha verdadeiro fascínio por passeio de carro. E lá ia a criança toda contente, desde que tivesse mais alguém junto. Sozinha com o pai, chorava como se faltasse um pedaço de si. Ninguém nunca entendeu. Nem a mãe. Não parava quieto no colo do pai. Chorava, simplesmente chorava. Nada que pudesse ser explicado.
Aos seis, choro compulsivo ao lembrar de uma imagem bonita: um velhinho bem magro que o segurava em seu colo, lhe contando histórias fantásticas e mostrando como as gaivotas se relacionam com o ar. Mas ele ainda não entendia. Apenas imagens.
Aos dez, embora sem entender direito o símbolo das alianças, o menino ficou encantado com a leveza da jóia e o branco do vestido de noiva da irmã. Encontraria no cunhado a figura que sempre quisera ter, mas a decepção veio logo. Percebera que o cunhado não era tão diferente assim daquele que era obrigado a chamar de pai. Entristecia-se sempre antes de dormir ao imaginar o tom sombrio das discussões e rezava ao velhinho magro para que nunca ela pudesse engravidar do marido. Desejou ser um pequeno felino, ao ver, certa tarde de sol, um filhote de gato deitado sobre a barriga de seu pai que passava a língua de leve sobre seu pêlo.
Com cinco anos e meio, nasce o irmão. Olhava a penúltima ninhada de coelhinhos e percebia como eles brincavam de mordidinhas uns nos outros, como uma gostosa demonstração de carinho fraternal. Mal podia imaginar que o irmão, dificultaria ainda mais sua relação com o pai. O irmão tinha uma forte ligação com o pai, o que o fez, mais tarde, perceber que sua teoria de que ninguém pudesse suportá-lo, fosse descartada. Perturbação. Questionamento. Dúvida. Como o pai se relacionara tão bem com o irmão e não com ele?
Vez ou outra, o pai dava ao filho alguns doces e chocolates... com recheios de silêncio, embalados com papeizinhos coloridos de distanciamento.
No seu oitavo aniversário, ao brincar com pedrinhas numa calçada isolada da escola, percebeu uma legião de formigas passando por baixo de suas pernas e se impressionou ao vê-las enfileiradas, cada qual carregando um pedaço de folha. Com uma das pedras, esmagou o máximo de formigas que pôde. Sentou e ficou olhando a pequena legião cadavérica. Algumas ainda agonizavam. Levantou, preparou uma espécie de ninho com alguns gravetos e folhas secas, pegou uma por uma e fez o sepultamento embaixo de uma escada. Por cima ele jogou algumas folhas de amora bem verdes e perfumadas. Foi a última vez que brincou com pedras.
Com catorze, o instinto de independência do menino ficava cada vez mais aguçado. Começou a trabalhar para ganhar pelo menos o que dava para comprar alguma coisa sem ter mendigar ao pai, embora antes já houvera feito. Foi aos nove a tentativa frustrante de vender picolé. No terceiro dia foi assaltado e o abalo veio como tempestade em dia de sol. Pensava que se tivesse um pai presente, poderia tê-lo contado o ocorrido e, talvez, resolvido o problema ou pelo menos tentado outras vezes.
De volta aos três, a imagem de um menino feliz correndo em volta de um caixão com pequenas pedras nas mãos e um sorriso alheio ao que acontecia: a grande perda.
Outro ponto condenado pelo garoto era a covardia paterna. Sempre que o pai tinha algo a falar com qualquer um deles, mandava recado pela mãe, que era uma espécie de porta-voz do marido. Se havia alguma coisa de errado que algum dos filhos havia feito: “o seu pai falou que...” frase esta que se repetiu por muitos anos através da boca da mãe. Quis e provocou várias situações para que a cena dos sete se repetisse.
Numa das brigas com o irmão, este aproveitou para fazer o que adorava: distanciá-los ainda mais. Foi o suficiente para o pai dar um tapa na cara daquele jovem, em plenos dezesseis anos. Visualizou o pai numa cova escura e úmida, enquanto saboreava uma taça de sorvete bem gelada. Apesar de ser quase impossível, evitava assistir às cenas de afeto entre o pai e o irmão. Pensou novamente em manusear algumas pedras, mas não conseguiu.
Viver sob o mesmo teto que o pai fizera cada dia daqueles dezoito anos, infindáveis. Mas felizmente chegou e a promessa feita aos doze, finalmente pudera ser cumprida. Precisava estudar, mudar o rumo de sua vida, traçar um outro destino, descobrir horizontes. Só não sabia que nada seria tão fácil como aquela promessa. Nunca mais falaria com o pai. Simples assim. Passado apagado, excluído. Vida nova sem pai, já que esta palavra era só uma nomenclatura imposta.
A primeira ligação recebida fora do pai. Monossílabas. O pai passou a fazer freqüentes ligações ao filho, saber se estava bem, se precisava de alguma coisa. Sempre estava tudo bem, não precisava de nada. Estranhamento. Humilhação? Preocupação. Conversas vagas, silenciosas. Mesmas perguntas, mesmas respostas. Como o pai podia estar preocupado? Não se pode preocupar com desconhecidos. Confusão. Medo.
Adulto, passara a perceber que o pai não aprendera a demonstrar afeição. Mas, e o irmão? Eles se amavam, viviam juntos onde quer que fossem, gostavam das mesmas coisas. Passou a observar com mais cuidado nas visitas que fazia a eles. Era o irmão quem procurava o pai e fez com que ele aprendesse a dar e a receber carinho, embora que somente a ele.
Pai, eu fiz uma coisa horrível. Eu sou uma pessoa horrível. Horrível, pai. Horrível. Eu deixei de te dar o que eu e você sempre procuramos um do outro e que nunca nos demos. Fui eu. Nunca joguei bola contigo. Nunca te abracei. Queria tanto ter aprendido a dirigir com você. Lembra? Nem isso eu deixei. Todos os passeios que você fez com o meu irmão, eu queria ter estado junto. As brincadeiras que vocês faziam... os abraços... os conselhos que eu nunca ouvi... Sempre acreditei que você não me amava, por isso não te amei. Eu não sei o que aconteceu na minha infância que me levou a te rejeitar, mas...
O que restou foram palavras ensaiadas e a imagem da única figura que ele admirou em vida e que na verdade não passara de uma incerteza: o velhinho magro no caixão de madeira, naquela tarde bonita que o fez brincar e, em outras vezes, lembrar daquela e de outras tantas imagens em que o velhinho sempre o acompanhava e o acompanhou por toda a vida.

Autoria: Everson Bertucci

MPb3

Maldição. Quando acordei, apenas uma pessoa no vagão, e duas estações adiante de onde eu deveria ter descido. Outra cidade. Rapidamente, dirigi-me aos guardas e perguntei:
-- hoje ainda passa trem?
Sorrindo, um deles me respondeu:
-- sim.
Por dentro, um alívio. Mas ele continuou sem perder o sorriso:
-- às 4h40 da madrugada.
Foi com aquele sorriso que ele me fez perceber que se passava da meia-noite e que eu fiz aquela pergunta usando o “hoje” achando que era ontem. Perguntei se tinha algum outro meio de condução para que eu pudesse voltar pra casa e outra vez ele me respondeu sorrindo:
-- táxi!
A vida se repete na estação. Eu sei, errei de novo. Devia ter perguntado se ainda tinha ônibus. Felizmente o outro guarda percebeu a situação e disse que não havia mais ônibus naquele horário e que a estação estava prestes a fechar. Nas entrelinhas: eu não poderia passar a noite ali.
Ainda meio anestesiado, me perguntava como eu podia ter dormido daquela forma sabendo do risco de passar por apuros. Dei uma volta pela redondeza. Olhei a fileira de táxis. Pensei na distância. Olhei para a carteira. Descartei a hipótese. Pensei nos antigos relacionamentos, em amigos. Não tive coragem de incomodá-los. Ando tão à flor da pele.
A noite estava ficando cada vez mais fria. As portas de um bar estavam entreabertas e o homem que lavava o chão me informou que ainda havia um ônibus que passava por volta da uma hora da madrugada e me indicou o caminho de forma cortês. Só então entendi o sorriso do guarda.
No ponto, um senhor fuma e um engraxate dorme com a cabeça enfiada entre os joelhos. Dentro dos carros que passam, pessoas nos observam... e seguem. Vários. Ao longe, dois rapazes riem e gesticulam. Entre as conversas com aquele senhor, eu me imaginava deitado num canto qualquer, caso o ônibus não passasse.
Nunca pensei que fosse ficar tão feliz vendo um ônibus vindo em minha direção. Acordei o engraxate e subi com o aquele senhor pela porta da frente. O engraxate pediu carona ao motorista e a porta traseira do veículo se abriu. O problema mais grave estava resolvido. Desci no centro da minha cidade e agora era só caminhar por cinqüenta longos minutos e estaria em casa. Eu finjo ter paciência.
Foi tudo uma questão de sintonia. Nessas horas que se entende melhor a força da revolução tecnológica. No caminho que todos caminham, ninguém andava. Apenas um mendigo dormia numa das esquinas. Meus braços começam a se mexer e logo em seguida meu corpo é tomado pelo embalo do silêncio. Eu lembro da moça bonita da praia de Boa Viagem.
Ao olhar para um espelho, não sei se côncavo, convexo ou reconvexo, vi na minha imagem refletida uma mistura exótica e exuberante de Maria Bethânia e Renato Russo. Uma constelação estelar serviu de suporte para que eles, dentro de mim, passassem de mãos dadas rumo ao relicário. Dentro dele, uma garotinha cheia de malandragem e só de calcinha saiu, descalça, cantando. Ela corria gargalhante arrastando um violão. Veio até mim e disse bem baixinho:
-- entregue este violão à moça bonita que fica atrás daquele Monte. Ela sabe como usá-lo.
E deu um toque numa das cordas do instrumento. Nem precisei chamá-la. Ao ouvir, a moça saiu detrás do Monte e a plenitude tomou conta da rua. Gotículas coloridas caíam. Entre elas, outra moça desgrenhada saiu da Mata, acompanhada de um rapaz chamado Zé. Havia uma beleza ali. Todas aquelas vozes se juntaram e ao som de bandolins continuamos caminhando.
Os poucos que passaram pela rua, dentro de seus carros bonitos, me olhavam com olhos de interrogação aos meus movimentos empolgados e minha boca que só emitia silêncio e alegria.
Encontramos um homem de vestimentas escuras, barba por fazer e jeito maluco, que disse ser necessário que eu perdesse aquele trem das 11. Até ele já sabia, embora o horário do trem não fosse bem esse. Muitas coisas inusitadas pelo caminho. A mulher com jeito de menina - meio japonesa, inteira brasileira - cantava sobre o tempo; a Evangelista que não era a cura para a loucura de ninguém; Tim Maia tomando uma xícara de chocolate quente enquanto observava A Menina da Lua fazendo um pedido à mãe:
-- mande notícias do mundo de lá...
E no segundo em que tudo parou, Ney aceitava a rosa oferecida pelo Beija-Flor e ela logo se transformou num grande campo de girassóis de amarelo intenso e eu ia e eu ia e eu ia...
Passado das duas da manhã, cheguei em casa e antes que eu pudesse convidá-los para entrar, uma Borboletinha invocada disse que eles andam pelo mundo prestando atenção em cores, divertindo gente.
Uma maquininha tão pequenininha!

Autoria: Everson Bertucci

A FABULOSA SAGA DE TIQUINHO E MARIINHA

Era uma vez, no alto de um morro, uma escola grande, com várias salas de aula, várias faixas etárias de alunos, muitas professoras e duas crianças bem incomuns. Mariinha e Tiquinho. Por uma coincidência - dessas que às vezes são felizes, outras, nem tanto - eles foram parar na mesma sala.
Além de observadores, eles gostavam muito de aprender coisas novas. Questionavam o que lhes era passado e muitas vezes percebia as incoerências da escola. Mariinha e Tiquinho eram muito amigos, faziam as atividades junto e gostavam de comentar quando alguma informação equivocada chegava aos seus ouvidos atentos. No geral, eles se davam muito bem com as outras crianças, embora se sentissem bem diferentes delas. No decorrer do ano eles perceberam que sua professora, Suzana Lilí, estava repetindo atividades e pelo andar das coisas, tampouco preparando as aulas.
É claro que as outras crianças da sala não perceberam nada, mas Mariinha alertou Tiquinho e eles começaram a ficar bem mais atentos do que já eram. Durante o período letivo as duas crianças perceberam que a professora Suzana Lilí cometia muitos deslizes. No princípio eles acharam normal, mas depois viram que com Suzana Lilí era uma coisa muito freqüente. Ela trocava n por m, x por s, c por s e frases absurdamente mal construídas. Quando se tratava de matemática então: era um desastre. Houve ocasiões que até com calculadora ela errava.
Mariinha e Tiquinho não sabiam o que fazer. Tiveram receio em falar para a direção da escola e não serem compreendidos, afinal, além de serem crianças, havia a questão deles passarem por cima – por pior que fosse – da autoridade máxima da sala.
Suzana Lilí vivia se gabando que era professora concursada há quase vinte anos. Para ela isso era motivo de orgulho. Vivia falando isto em sala de aula, enquanto os dois cochichavam entre si:
-- Também, naquela época deviam existir mais vagas do que candidatos ao cargo.
Ela também falava das viagens que fazia nas férias, das histórias que para ela eram muito engraçadas e que para os alunos não passava de uma chatice. Eles se retorciam por dentro quando ela começava a contar suas aventuras de super-professora. Era como se os alunos tivessem ganhado um caminhão de doces e brinquedos e Suzana Lilí viesse e arrancasse tudo deles num golpe só. Quando ela começava a narrar o episódio de seu casamento - e isso ela fazia toda semana – Mariinha comentava com seu coleguinha:
-- Por quê ela não descarrega logo um revolver na minha testa e acaba logo com isso?
Era sempre aquela mesma história do marido que teve alergia e ficou todo empipocado na lua-de-mel; do mico que eles pagaram no hotel onde se hospedaram; dos problemas que tiveram no avião; e das visões que Suzana Lilí dizia ter. Dizia que dois anos antes de engravidar ela já sabia que seria uma menina e o nome da criança tinha sido revelado num sonho.
-- Bem que ela podia usar esses poderes para ver que é uma chata e que está me torturando! - outro comentário de Mariinha.
Chegou a um ponto que Mariinha e Tiquinho resolveram tomar uma atitude. Se convenceram que o melhor a fazer era pedir que os transferisse daquela sala. Conversaram com seus pais e contaram tudo a eles. Estes acharam um absurdo, eles não sabiam que os dois eram bem diferentes das outras crianças. Se convenceram que seus filhos tinham uma imaginação fértil e que haviam inventado todas aquelas histórias dos erros gramaticais, matemáticos e das histórias torturantes que Suzana Lilí vivia contando.
Resolveram conversar com a diretora da escola. Alegaram que gostariam de fazer novas amizades com outras crianças e que queriam novas experiências. Ela os levou até a janela e disse:
-- Estão vendo aquela mula pastando ali?
Os dois balançaram suas cabeças dizendo sim.
-- É a Mula Mumu. Ela pasta aqui todos os dias. E sabem por quê eu nunca a impedi de fazer isto?
Eles fazem o mesmo gesto, só que negativamente.
-- Porque é preciso. Para que ervas daninhas e o capim não tomem conta desta escola. Assim como é preciso que vocês dois voltem para a sala e façam o que tem de ser feito lá.
-- Mas a gente só...
-- Agora!
Saíram cabisbaixos. Ninguém acreditava neles, afinal, Suzana Lilí se fazia passar por simpática com a diretora e com os pais de seus alunos que ninguém podia imaginar que fosse capaz de cometer aquilo que Mariinha e Tiquinho tinham relatado.
Vencidos, os dois amigos resolveram não dar ouvidos às atrocidades ditas por Suzana Lilí. À cada dia ela se superava. A situação foi ficando tão difícil que num determinado momento Tiquinho abriu um potinho de tinta guache e já ia engolindo, para dar fim àquilo tudo. Felizmente foi impedido a tempo por Mariinha que estava atenta.
-- E a se a gente pegasse um litro de álcool e atiasse fogo nela? sugeriu Tiquinho.
-- Ficou louco? Não vê que as outras crianças ficariam traumatizadas?!
Mariinha sugeriu que eles reunissem provas concretas das falhas de Suzana Lilí. Começaram a guardar uma cópia de cada atividade mal elaborada, dos erros de ortografia e por fim bisbilhotar nos planos de aula dela. Como Suzana Lilí costumava sair muito da sala para bater papo com outras professoras na porta de suas salas, as duas crianças aproveitavam para mexer nas coisas dela para ver se achavam algo mais comprometedor. Até que encontraram o projeto de aula dela.
-- Aqui deve conter o suficiente!
Sem que o restante da sala percebesse - pois estavam muito entretidos com as atividades que Suzana Lilí havia lhes dado antes de se ausentar – os dois pegaram aquela cópia do projeto e esconderam embaixo da mesa de Mariinha para que num momento mais reservado pudessem analisar.
Na hora do intervalo daquele mesmo dia, enquanto seus colegas se divertiam no parquinho - e Suzana Lilí contava pela enésima vez aquela velha história de sua lua-de-mel para as outras professoras, que ouviam tudo com cara de paisagem - Mariinha e Tiquinho começaram a leitura do tal projeto. Mariinha se prontificou em ler em voz alta para que os dois pudessem ouvir ao mesmo tempo. Em poucos minutos estavam extasiados. Tiveram uma crise de riso histérica. Pareciam duas crianças ensandecidas. Deitaram no piso e esperneavam de tanto rir. Batiam as mãozinhas no chão e tiveram até dor no abdome de tanto gargalhar. À cada página lida, eles se retorciam. Até que Tiquinho fez um pedido à Mariinha:
-- Pára, pelo amor de Deus, que eu estou morrendo! – rolando de tanto gargalhar!
E eles deram uma trégua. Como o projeto tinha muitas páginas eles iam lendo pouco a pouco e a cada dia era uma maratona de risos. Eles sabiam que nunca nenhum livro de piada, comédia ou qualquer outro gênero literário iria fazê-los se divertir tanto.
Além dos erros que eles já estavam acostumados a ver nas escritas de Suzana Lilí, encontraram no projeto vários gráficos que nem os surrealistas seriam capazes de criar. Alguns deles contabilizavam cerca de 170, 230 e até 300%. Mariinha por um momento sentiu que ia desmaiar. Felizmente recuperou o fôlego e prosseguiu. Perceberam também que em todas as páginas, além da pontuação comum – muitas vezes equivocada – havia uma quantidade muito grande de ponto e vírgula. Ao final de quase todas as frases havia um ponto e vírgula. Aquilo os deixou intrigados. Foram até a biblioteca – que para os dois amigos era uma rotina – e pesquisaram sobre o uso do ponto e vírgula, pois até então eles não sabiam como os livros gramaticais indicavam como usar tal recurso e chegaram à mais uma conclusão:
-- Ela deve achar ponto e vírgula uma coisa muito bonitinha!
No dia seguinte ao entrar em sala de aula, a professora Suzana Lilí se deparou com a lousa repleta de pontos e vírgulas. Enquanto Mariinha e Tiquinho se olhavam de rabo de olho e minúsculos sorrisinhos, Suzana Lilí, sem entender nada, começou sua aula normalmente.
Foi então que eles se dirigiram à Suzana Lilí.
-- Professora, precisamos conversar com a senhora – disse Tiquinho.
-- Oi, meus queridinhos! Mas o que duas criancinhas tão lindinhas podem querer falar com a sua professora?
-- Mais um diminutivo destes e eu jogo esse pirulito dentro do olho dela – cochichou Mariinha à Tiquinho.
Tiquinho disse que eles queriam ser transferidos de turma, pois gostariam de conhecer novas crianças, ter novas experiências. Apesar de tudo não queriam magoar Suzana Lilí. Mas esta nem deu ouvidos ao pedido deles.
-- Imaginem, meus anjinhos, o que iria pensar a diretora e até os outros professores se vissem saindo da minha sala dois alunos de uma só vez? Não pegaria bem pra mim. Iriam pensar que não sou uma boa profissional. Eu sei que vocês são espertinhos e gostam de novidades, mas terão de permanecer comigo até o fim do ano, são as regras. Prometo fazer muitas brincadeirinhas divertidas e contar bastante historinhas pra vocês
-- Será que a retardada sou eu? – pensava Mariinha.
-- Mas professora...
-- Agora voltem para os seus lugares que eu vou dar um desenho bem lindinho para vocês pintarem.
-- Eu morri, vim parar no inferno e ninguém me disse nada, não é Tiquinho?
Derrotados, eles se dirigiram para os seus assentos.
-- Fazemos o quê agora, Mariinha?
-- Eu quero vomitar!
-- Desistimos?
E se deu um silêncio. Não viram outra opção a não ser aceitar aquela situação até o fim do ano letivo, já que ninguém dera ouvidos aos seus apelos.
-- Daqui a pouco o ano acaba e tudo vai se resolver – concluiu Tiquinho.
Mas não puderam se conter quando Suzana Lilí continuava com suas histórias da lua-de-mel, seguidas de uma atividade equivocada.
-- Tem de haver um limite para tudo nesse mundo! Vamos dar um jeito nisto e é agora.
-- O que você vai fazer, Mariinha?
Ela pegou nas mãos de seu colega e se dirigiu à Suzana Lilí.
-- Oi, meus amores, o que querem desta vez? Ai, que lindinho esse lacinho no seu cabelo, Mariinha!
-- Mas um diminutivo e eu faço você engolir este laço!
-- Quem você pensa que é para falar deste modo comigo, mocinha?
-- Mariinha! E o diminutivo neste caso é um mero acaso.
-- Hein?
Mariinha disse a ela que eles não estavam mais suportando assistir às aulas. Que era difícil tolerar tantos erros cometidos por uma professora, principalmente em se tratando de uma aprendizagem infantil, que é de extrema importância.
-- Olha aqui, garotinha, todo mundo erra!
-- Claro, concordo plenamente que errar é normal. Mas no seu caso, raros são os acertos.
-- Não me interessa o que vocês pensam sobre mim.
-- Pois devia.
-- Vocês são minoria.
Para tentar amenizar, Tiquinho interrompe:
-- A gente só quer sair desta turma, professora.
-- Pois saibam que quem manda aqui sou eu. Eu sou a autoridade máxima e vocês não passam de duas crianças que mal saíram das fraldas. Não sabem de nada.
-- A gente só está querendo...
-- Nada. Vocês não têm que querer nada. Voltem para as suas mesas e não abram mais estas boquinhas, senão vão parar na direção.
Intimidados, eles voltaram arrasados. Uma semana depois, Mariinha teve um estalo.
-- Nós também estamos errados!
Mariinha se deu conta de que o restante da sala é que estava precisando de ajuda, pois os dois eram espertos o suficiente para se safar de Suzana Lilí, enquanto os outros alunos não tinham consciência que algo de muito errado estava acontecendo e que poderia afetá-los para o resto de suas vidas.
Foi então que os dois colegas reuniram todo o material que eles tinham e que comprovavam o que estavam falando e juntamente, um relatório escrito por eles mesmos - com maior interferência de Mariinha - e encaminharam para as autoridades municipais.
Após feita a análise de tudo o que foi relatado pelos alunos de Suzana Lilí, a mesma foi chamada pela autoridade competente que a deixou ciente do que estava acontecendo. Ela leu tudo o que estava escrito e não conteve as lágrimas, embora não tivesse percebido metade das acusações que pesavam sobre ela.
Não tendo outra solução para o caso, a mesma autoridade foi bem categórica:
-- Senhora Suzana Lilí, a partir de amanhã a senhora passa a prestar serviços no Estábulo Municipal.
Enquanto isso, a Mula Mumu continuava a fazer o que era preciso naquela escola fria, localizada no alto morro.

Autoria: Everson Bertucci