terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Beyoncé através dos vagalumes

A diva da música pop leva multidão ao Estádio do Morumbi, em sua única apresentação no Estado



Depois de esperar durante 1 hora e 38 minutos, terminada a apresentação da cantora Ivete Sangalo, encarregada da abertura do tão esperado show da musa pop, Beyoncé, marcado para sábado (6), no Estádio do Morumbi – as luzes do local se apagaram por completo, precedendo a entrada da cantora. Se existia cansaço nas pessoas, que tanto esperaram por ela, ele se foi num segundo, e os gritos de delírio tomaram conta do estádio. Um minuto depois, exatamente às 22h22, a cortina se abriu com o clássico efeito da fumaça... e lá estava a diva.


Os fãs foram ao êxtase e o que se via eram centenas de máquinas fotográficas, filmadoras e celulares, todos apontados na mesma direção: o palco. Era possível ver a cantora refletida nas inúmeras maquininhas, que mais pareciam uma legião de vagalumes tecnológicos. Beyoncé soltou o vozeirão e seguiu com suas canções, já bem assimiladas pelo público. Quem conseguiu observar ao redor, percebia o estádio todo iluminado com as luzezinhas azuis dos aparelhos.

Seu primeiro figurino, bem insinuante por sinal, tinha um laço na parte traseira. Há quem comentasse o mal-gosto da escolha, mas bem que alguns homens expressaram, através de piadinhas, a vontade de puxar o laço e descobrir o presente que havia ali. Logo depois, a cantora entrou toda de branco, com o mar ao fundo, no telão. Em seguida, Beyoncé foi até a frente do palco e começou a cantar Ave Maria. Foi um dos momentos marcantes do evento, cheio de efeitos visuais.

Outro desses momentos de delírio foi quando a musa pronunciou as palavras São Paulo, com seu sotaque americano. Foi aplaudida e ovacionada. Por um momento, foi como se ela tivesse dito “acabou-se a fome e a miséria no mundo”, mas era apenas o nome da cidade mesmo. Se alguém foi ao show apenas para comprovar que a intérprete conquistou sua fama pelas belas pernas, bumbum arrebitado, cabelão turbinado e rosto bonito - juntado tudo numa boa produção audiovisual -, talvez tenha se surpreendido com a performance e fôlego da estrela.

Beyoncé desceu até a plateia, passou a mão em alguns fãs, beijou camisetas e jogou para o público (tudo como o manda o figurino), perguntou o nome de um fã e o incorporou numa das músicas. Também fez homenagem ao Brasil - carregando a bandeira nacional - e fez com que a multidão se entregasse a ela, num ritual que transcendeu qualquer explicação lógica. Independentemente de ter ou não qualidade, Beyoncé conseguiu cravar seu nome na história pop da música. Se isso vai longe? Só o tempo vai responder.

Um episódio inusitado foi quando entrou um vídeo ao som da música Single Ladies, com imagens de fãs reproduzindo a performance da estrela. Crianças, adolescentes, adultos, idosos, homens, mulheres, artistas e até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fazendo estripulias das mais inusitadas e hilárias com a música. Ao final da exibição, Beyoncé entrou com seus bailarinos e finalmente cantou o último número do show. Não houve quem não cantasse o refrão. Mesmo quem não suporte a música, sabe a letra. O mais curioso era ver que, até os marmanjos, faziam a cena da mãozinha (quem conhece a coreografia sabe do que se trata).

Encerrada a música, a diva saiu de cena, mas logo voltou para o bis. Entrou cantando Halo, fez homenagem a Michael Jackson e, exatamente à 0h17 do domingo (dia 7), finalizou a apresentação. A frase I am (que dá título à turnê) estava atrás dela, no telão, e quando Beyoncé fez sinal de que era o fim, a frase foi completada com Yours. As cortinas se fecharam com os aplausos de todo o estádio. E no telão: I am... Yours.

Beyoncé deu um show de profissionalismo e, no mínimo, comprovou que sabe conduzir uma plateia sedenta de entretenimento de qualidade. Se houve playback, ele não foi percebido. O que se notava, pelos telões, era muita emoção e deslumbramento no rostos dos fãs. Homens e mulheres chorando de alegria ou sabe-se lá por quê.

Everson Bertucci

Texto publicado no dia 08 de fevereiro de 2010 no link
http://www.onne.com.br/cesar/materia/variedades/12169/beyonc-em-s-o-paulo

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Chagall em gravuras


Masp recebe a exposição O Mundo Mágico de Marc Chagall


O Museu de Arte de São Paulo (Masp) sedia, desde sábado (dia 23), a exposição O Mundo Mágico de Marc Chagall – Gravuras, que reúne 178 obras do artista que nasceu em 1887, na Bielo-Rússia, e morreu em 1985, no sul da França, país que o adotou como cidadão. A arte da gravura, que há dois anos levou milhares de pessoas ao Masp, com séries completas de Goya, poderá ser mais uma vez apreciada pelo público que visita o museu. Sob curadoria do museólogo Fabio Magalhães, a mostra apresenta séries emblemáticas de gravuras. Entre elas, as integrais de A Bíblia e Dafne e Cloé, criadas entre os anos 20 e 50.


Trazidas especialmente para a exposição O Mundo Mágico de Marc Chagall - O Sonho e a Vida, as gravuras integraram a mostra apresentada em Belo Horizonte e Rio de Janeiro e, agora, chegam a São Paulo. A série Dafne e Cloé ganha destaque na exposição, com 42 gravuras, fruto de duas viagens de Chagall à Grécia. O artista tinha o propósito de vivenciar a atmosfera e a luminosidade da paisagem e conhecer melhor a cultura pastoril do país.


A primeira visita, em 1952, proporcionou a execução dos primeiros guaches, que registram a luz mediterrânea e a experiência emocional vivida em terras gregas. Os 42 guaches foram realizados entre 1953 e 1954 e serviram como estudos preparatórios para a transposição em litografias. Para chegar ao resultado pretendido, de extraordinária beleza cromática, Chagall trabalhou com o impressor Charles Sorlier, no famoso estúdio de Fernand Mourlot. Foi necessário utilizar uma pedra para cada tonalidade de cor, ou seja, uma única gravura exigiu 25 pedras-matrizes.


Outro destaque da mostra é a série As Fábulas de La Fontaine, com 23 gravuras, trabalho encomendado pelo marchand e crítico de arte Ambroise Vollard. Chagall produziu, entre 1926 e 1927, cem guaches representativos das fábulas de La Fontaine (1621-1695).


As obras foram expostas em 1930 em Paris, Bruxelas e Berlim e, comercializadas, acabaram se dispersando pelo mercado, tornando praticamente impossível a reunião integral da série. Antes de finalizar as gravuras para esta série, Chagall recebeu de Vollard o pedido para que realizasse um conjunto que batizaria A Bíblia, com 105 gravuras. O artista trabalhou no tema de 1931 a 1939, quando visitou a Palestina para ver de perto o palco dos acontecimentos bíblicos. A série integral destas obras, aquareladas à mão pelo artista, estão apresentadas agora no Masp e abertas à visitação.

Everson Bertucci

Publicado no dia 27 de janeiro de 2010 no link
http://www.onne.com.br/cesar/materia/mercado_de_arte/11968/marc-chagall-em-gravuras

SERVIÇO

O Mundo Mágico de Marc Chagall – Gravuras
Masp
Avenida Paulista, 1.578, tel. 3251-5644
De terças a domingos e feriados, das 11h às 18h; Às quintas-feiras, das 11h às 20h
R$ 15 (inteira); R$ 7 (meia); gratuito para menores de 10 anos e maiores de 60
Às terças-feiras, a entrada é gratuita para todos
Até 28 de março.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Alta-costura em Paris

Coleção Primavera-Verão 2010 da Christian Dior


A sobrevivência da Semana de Alta costura de Paris é uma necessidade para que a moda de verdade não morra. Dizem que moda não se vende, não se compra, e sim, se exibe. E ponto final. Ela está presente em ocasiões especiais, como o Oscar, grandes eventos, noites glamurosas. Toda a beleza dessa criação se torna uma alegria para os sentidos daqueles que poderão admirar essa estética magnífica, eterna e impossível, assim como as ideias de grandes estilistas, como John Galliano, em sua nova Coleção Primavera-Verão 2010 para a maison Dior.

É claro que falar em Semana da Moda de Paris é falar em Galliano que, como sempre, é muito esperado. Tudo vira um alvoroço só para a apresentação da coleção do estilista, suas cores, seus modelos extravagantes, que se deixam levar pelo mundo da moda e da arte, transmitido através de suas ideias. De Galliano, toda excentricidade é pouca, principalmente ao se tratar da coleção Primavera/Verão 2010, para a grife Christian Dior. O estilista mostra toda sua influência britânica na criação dos modelitos.

John Galliano é considerado um gênio por muitos, um pequeno gênio, melhor dizendo, mas ele não só brilha na carreira de estilista, como na de transformista. Vem daí, talvez, sua grande capacidade para criar mil e um tipos de mulher, sempre dentro do campo do extraordinário. Outra capacidade dele é a de criar identidades notáveis em sua caracterização. Temporada atrás de temporada, o estilista adquire uma nova personalidade distinta para finalizar seus desfiles.

No último, em Paris, Galliano se meteu no papel de Humphrey Bogart, numa particular homenagem ao cinema, se passando pelo ator que contribuiu muito para a história da Sétima Arte, em filmes como Casablanca e Relíquia Macabra. O imaginário deste estilista é uma fonte inesgotável de inspiração.

Everson Bertucci

Publicado no dia 26 de janeiro de 2010, no link
http://www.onne.com.br/cesar/materia/fashion/12042/alta-costura-em-paris

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Estranho Tim Burton


Cineasta é homenageado pelo Museu de Arte Moderna de Nova York


Quase impossível deixar de associar Johnny Depp ao cineasta Tim Burton. Uma boa parte dos filmes do diretor tiveram o ator como protagonista. Entre os mais famosos estão os inesquecíveis Edward – Mãos de Tesoura, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Sweeney Todd e Alice no País das Maravilhas, que ainda está em fase de finalização.


Mas, enquanto todos aguardam, ansiosos, pelo novo trabalho da dupla, o cineasta Tim Burton ganhou uma homenagem no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York. Trata-se da exposição O Estranho Mundo de Tim Burton, que inclui a exibição de todos os longas do diretor, além de curtas-metragens e filmes que ele fez quando era estudante, além de quadrinhos, desenhos infantis, fantoches, figurinos e esculturas baseados no surrealismo pop, segundo os organizadores.


É claro que para conhecer e ter o privilégio de apreciar os, aproximadamente, 700 objetos que resumem os quase 30 anos de carreira do diretor, os fãs e admiradores da obra deste cineasta terão de fazer uma visitinha ao Museu de Arte Moderna de Nova York até o dia 26 de abril. Mas para aqueles que não estão com tempo disponível na agenda por estes dias e não se importam de esperar um pouco mais, uma boa notícia: O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) anunciou que a mostra passará pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.


Ainda não se sabe ao certo a data que a exposição chegará ao país, mas tudo indica que o próprio Tim Burton virá para sua inauguração. O Estranho Mundo de Tim Burton passará primeiro pelo Rio de Janeiro e depois seguirá pelas unidades de São Paulo e Brasília. O CCBB promete um investimento de R$ 41,5 milhões em mais de 130 projetos selecionados para suas três unidades. Agora, é esperar e torcer para que dê tudo certo e que não demore muito. Enquanto isso, a gente corre para a locadora e se contenta com os longas.


Alice no País das Maravilhas - o filme

Para os que acompanham toda a filmografia de Tim Burton, o mais novo filme do diretor, Alice no País das Maravilhas, está prestes a ganhar as telonas. Se o livro de Lewis Carroll já narra uma história muito louca, dá para imaginar o que o filme traz por aí, principalmente quando a direção tem a assinatura sombria de Burton. O longa será lançado em março, mas já está dando o que falar com a simples divulgação das imagens dos personagens.

É óbvio (e ainda bem!), que não poderia faltar Johnny Depp no elenco. O ator vive o Chapeleiro Maluco, personagem que tem um dos figurinos mais comentados, além da caracterização. Dessa vez, Depp aparecerá com um cabelo ruivo desgrenhado, sobrancelhas fartas e um belo par de olhos verdes enormes.

A ficha técnica do filme é completada por Helena Bonham-Carter (casada com o diretor), que, no filme, vive a Rainha de Copas. A atriz teve sua cabeça aumentada digitalmente, representando o grande ego da personagem. Já Anne Hathaway dará vida à irmã da Rainha de Copas. A boca da atriz será realçada por um batom vermelho e é quase o único elemento reconhecível em Anne. A atriz teve de trocar os cabelos negros por madeixas cor de platina.

Outro que teve o corpo modificado digitalmente foi o ator Matt Lucas, que aparece logo no início da história, quando Alice encontra os irmãos Tweedledee e Tweedledum. O personagem teve de passar por uma transformação digital para ficar parecido com os gêmeos em formato de ovo. O famoso Gato de Chesire será feito por Stephen Fry. Já a protagonista que dá nome ao filme será interpretada pela australiana Mia Wasilowska, de 19 anos. Alice no País das Maravilhas será lançado no dia 12 de março, nos cinemas.

Ao ser perguntado sobre os motivos que o levaram a filmar Alice..., Burton disse que se sentiu atraído pelo filme porque acha que nunca foi feita uma versão forte para o cinema da história clássica de uma menina que cai numa toca de coelho e vai parar num mundo de fantasia.

Everson Bertucci

Publicado no dia 18 de janeiro de 2010 no link abaixo
http://www.onne.com.br/cesar/materia/mercado_de_arte/11943/o-estranho-tim-burton

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Os Seresteiros da Praça da Luz



Trio faz um mergulho na cultura popular brasileira num resgate de canções antigas




Nos arredores da Pinacoteca e do Museu da Língua Portuguesa, entre cultura contemporânea e moderna, esculturas e monumentos, entre prostitutas, cafetões, bêbados, crianças, adolescentes e adultos, a Praça da Luz é cenário para um trio de seresteiros que fazem um resgate de canções populares, nas tardes de sábados e domingos, cantando e tocando músicas que, hoje, quase não se ouvem mais nas rádios.

Passear pela Praça da Luz pode tanto ser um divertimento, como estar perto e atento a um leque de opções culturais. Em frente a ela, o Museu da Língua Portuguesa oferece várias opções de conhecimento dentro da nossa língua. Do lado, a Pinacoteca disponibiliza exposições de artistas relevantes nacional e internacionalmente. E nem precisa entrar na instituição para apreciar seu acervo. No próprio parque há inúmeras esculturas espalhadas, de artistas como Lasar Segall e Caciporé Torres.

Antes de atravessar o portão que dá entrada à praça, já é possível sentir o cheiro do verde. Uma jaqueira, com frutos e repleta de folhagens, dá o ar da graça. Ao entrar, pessoas de todos os nichos circulam pelos corredores do lugar. E bem próximo ao portão, sentados num dos bancos, os seresteiros Erito de Souza Leão, de 76 anos, Felimom Franco, 69, e Antônio José Gonçalves, 67, encantam a plateia que para, ouve, se encanta e segue.

Como todo o centro de São Paulo, a Luz também se tornou um lugar de passagem, e enquanto as pessoas passam, Leão dedilha o saxofone, Franco e Gonçalves o acompanham no violão. Alguns chegam bem perto do trio, outros admiram, ficam mais de longe, se empolgam, fazem pedidos, outros, permanecem contidos, ouvindo em silêncio. Leão para o saxofone e começa a cantar. Uma voz grave, forte. Uma voz de quem já viveu e cantou bastante.

Alguns estudantes conversam com os músicos, lhes fazem perguntas, filmam, fotografam, questionam. Eles respondem, atendem, brincam, fazem piada e voltam a tocar e cantar. Num certo momento, a plateia se torna totalmente masculina. Vários homens, de diferentes idades, observam os cantores e tocadores. Seus olhares têm expressão de lembrança.

Antonio Domingos dos Santos diz que sempre passa para ouvir os seresteiros. “Ouvi-los cantar me traz muitas lembranças. Lembro da minha família, de momentos que vivi. A música tem o grande poder de marcar épocas, vidas, momentos especiais. Na minha história não foi diferente”, completa.

Tudo de mais inusitado acontece nos corredores da praça. Enquanto o trio canta, passam artistas de rua com números circenses, senhoras passeiam com seus netos, senhores negociam com as prostitutas, casais passam de mãos dadas trocando carícias. Nada afeta os seresteiros, nem o barulho da trupe do circo, tampouco o estrondo dos aviões que sobrevoam o parque.

Nostalgia

Quem viveu entre as décadas de 20 a 50 certamente irá parar quando o trio começar a tocar: “Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso...”, de Pixinguinha, ou um Samba canção de Noel Rosa, “Perto de você me calo, tudo penso e nada falo, tenho medo de chorar...”. O resgate de músicas antigas, feita pelo trio, tem o intuito de não deixar que músicas da época vivida por eles, morram. Franco diz que são canções muito bonitas e que estão caindo no esquecimento. “Podem ver que aqui chega muita gente e pede uma música, um samba canção de Nelson Gonçalves, mas tem muitos que não conhecem. Porque as músicas foram engavetadas, infelizmente, esquecidas”, diz.
Não há quem não passe e pelo menos por um minuto não pare, não fique curioso, quem não passe pelo caminho e cantarole algumas estrofes da música. “Antigamente as músicas tinham mais melodia, mais poesia, mexiam com as pessoas, com seus sentimentos. O Nelson Gonçalves tocava violão, cavaquinho, pandeiro. Assim como a banda Demônios da Garoa ainda mantém essa tradição”, declara Franco.
É começar a dedilhar a introdução de alguma música que as pessoas que estão passando param, fazem roda, conversam com os músicos, fazem escolhas - são exigentes - dão palpites. A Música começa nos primeiros acordes no sopro do sax, logo em seguida os dois violões acompanham. Se ouve Cartola, Pixinguinha, Ary Barroso, Chico Buarque, Roberto Carlos, entre outros clássicos.


A Formação do Trio

Franco e Gonçalves faziam parte de um trio formado por outro integrante, Jorge, que tocava cavaquinho, falecido há quase dois anos. Eles tocavam samba e samba-canção, sempre na rua 15 de Novembro, no centro da capital paulista. Após a morte do parceiro, a dupla resolveu tocar no Parque da Luz, onde conheceram o saxofonista Erito de Souza Leão.

Leão conta que o encontro com a dupla Franco e Gonçalves não foi casual, pois já tinha ouvido eles tocarem na rua 15 de Novembro e desde então, passou a admirá-los. Quando os encontrou na Praça da Luz, aproveitou a oportunidade, os abordou dizendo que tocava sax e que gostaria de tocar com eles. O músico relata que, no início, Gonçalves não acreditou muito e até fez piada da situação, mas acabaram conversando melhor e formaram um novo trio.

Para eles, o compromisso é com a música e com o prazer de fazer o que realmente gostam. Eles não têm um vínculo profissional e nem a obrigação de tocar. Simplesmente se encontram porque gostam do que fazem e se reúnem para tocar aos sábados e domingos no parque, embora isso não seja uma obrigação. “A gente procura tocar aqui todo final de semana, mas quando não dá não tem briga. Nós não temos uma agenda”, completa Franco.


Por Everson Bertucci, Flávio Rocha e Tainá Pio

Publicado no link http://www.onne.com.br/conteudo/11499/os-seresteiros-da-pra-a-da-luz

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dia da Consciência Negra

Poesia, Dança, Música, Teatro e Contação de História em Homenagem à Cultura Afro
No dia da Consciência Negra (20), a cidade de São Paulo estará repleta de atrações artísticas em comemoração à cultura afro-brasileira. A Casa das Rosas, o Museu do Futebol e o Museu Afro Brasil prepararam uma programação especial para esta data. Na Casa das Rosas, a celebração fica por conta do projeto Rimas de Zumbi, seguido do Grupo Camiranga, o Sarau Chama Poética e o show do Grupo Curima. O Museu do Futebol oferecerá atividades focadas na história da aceitação de negros, mulatos e mestiços no futebol, enquanto o Museu Afro Brasil trará duas encenações comandadas pelo grupo Os Cão de Jacobina.

Quatro atrações de grande relevância passarão pela Casa das Rosas no Dia da Consciência Negra. A comemoração começa, às 15h, com a mostra de algumas artes que fazem parte do musical Rimas de Zumbi, idealizado pelo Grupo Massala Diversidade Cultural. Em seguida, será a vez do Grupo Camiranga, formado pelo compositor, cantor e violonista Léo Nascimento, pela cantora e letrista Fernanda Paula e pelos percussionistas Matheus Prado e Rômulo Albuquerque.

No sarau, que se iniciará às 18h, música e poesia serão o cenário para cantores e declamadores prestarem homenagem à cultura negra. O cantor, declamador e escritor José Domingos cantará alguns afro-sambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell, além de declamar alguns textos. O encerramento fica por conta do Grupo Curima, que fará uma releitura de canções da tradição afro-brasileira e também compõe curimbas (rezas cantadas) com base na vivência do intérprete Paulo Brito na cultura Yorubá e da diversidade musical de seus componentes.


Enquanto isso, o Museu do Futebol, por meio de fotografias, vídeos e experiências sensoriais, mostrará aos visitantes como o futebol, que foi trazido ao Brasil sete anos após a Abolição da Escravatura, por membros da elite branca, demorou a aceitar negros em seus clubes. Proibia-se a presença de trabalhadores braçais, ou seja, a população que não pertencia à aristocracia da época. Contudo, o esporte foi ganhando em popularidade e os campos tiveram de ampliar seus limites para um mar de diversidade cultural.

Jogos e contação de história também fazem parte da programação do Museu. A atividade Mapa Mundi pretende levar o público a refletir sobre assuntos como o caráter comercial adquirido pelo futebol no século 21 e a contação de história será baseada no texto criado pelos educadores da instituição e terá duas intervenções, às 11h e 14h.

Paralelo a isso tudo, no Museu Afro Brasil haverá encenações, lançamento de livro e a abertura de uma exposição. A primeira encenação, Os Cão de Jacobina, às 17h, é de um grupo que sai pelas ruas durante a micareta de Jacobina, onde Os Cão e um Anjo encenam a disputa por uma Alma, tendo um como vencedor. Estes personagens risonhos, chifrudos e com dentaduras postiças são representados por brincantes da cidade, que se pintam de preto e saem fazendo algazarra, gritando e cantando.

A segunda encenação, Nego Fugido, às 18h, traz homens de rostos pintados com pasta de carvão, roupas de palha ou folha de bananeira. Eles saem à rua brincando e mostrando a sua impressão sobre a história, transmitida pela tradição oral, da liberdade da escravidão. Escravos, senhores, capitães-do-mato são personagens da fuga, da captura e da luta pela liberdade.

Às 19h, é a vez da abertura da exposição Eu Tenho um Sonho – De King a Obama, a Saga Negra do Norte, com obras dos artistas Alex Hornest, Antonio Helio Cabral, Baravelli, Claudio Tozzi, Dias Sardenberg, Futoshi Yoshizawa, George Preston, Ivald Granato, Newton Mesquita, Peticov e Siron Franco.Também às 19h, será o lançamento do Livro Textos de Negros e Sobre Negros, organizado por Emanoel Araujo.

Ufa! Quanta coisa!

Por Everson Bertucci

Publicado originalmente no site www.cesargiobbi.com.br, no dia 20 de novembro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

NOVA MESMA HISTÓRIA

Há muito tempo a avó foi ensimesmando e aos poucos, perdendo a memória. Não lembrava do dia anterior, da ação anterior, da palavra anterior.

Era preciso alguém que cuidasse dela, pois já não distinguia muito bem os objetos. Dava-lhes outros nomes, e era dada a achar que a água do vaso sanitário era encantada.


-- ela faz as coisas voltarem.


Também tinha ímpetos de querer pular a janela.

-- do lado de lá tem muita vida, dizia.


Puseram grades na janela.


Além desses cuidados especiais, a avó costumava contar todos os dias a mesma história: que foi casada com um general, teve treze filhos, que dois deles morreram na guerra como bravos heróis e que os girassóis lhe traziam uma grande tristeza.

Na família ninguém mais tinha paciência de ficar tomando conta dela. Ter de ouvir a mesma história várias vezes ao dia e se atentar para que não mexesse na água do vaso sanitário.
Henrique, de 9 anos, era o único que sobrara para cuidar da avó. Seus pais o obrigaram. Detestou a idéia, mas não havia escolha. Prometeram uma boa mesada.


-- você sabia que eu gosto de docinho? Perguntava a avó ao neto.


Ele não respondia. Ficava sentado entretido com os joguinhos do celular.

-- pois é, eu gosto demasiado de docinho.


Henrique nem ouve.


-- você nunca fala?


Silêncio.


-- como você se chama?


Meio irritado, responde.


-- Henrique.
-- ah, você fala sim. E tem uma voz bonita! E se fala, ouve. Vou te contar uma história.

E contava. Dia após dia a mesma história. Enquanto contava, se dirigia ao banheiro.


-- Vó, não vai mexer na água do vaso, viu?! É suja!


Ela parou na hora e ficou pensativa. Virou a cabeça na direção do neto, o olhou bem e disse:

- Vó?! Mas eu não sou sua vó. Te conheci agora.


E ficou espantada. Henrique, para não se estender no assunto...


-- Ah, é verdade. Eu devo estar ficando louco.


Ela até esqueceu que estava indo ao banheiro e voltou. Os dias passavam e ela contava para Henrique a mesma história, que entretido com seus joguinhos no celular, mal escutava. Até o dia em que foi tentar impedi-la de mexer na água do vaso sanitário e o celular caiu lá dentro e pifou.


Como não tinha mais como se distrair com seus jogos eletrônicos, começou a levar alguns brinquedos para não ter que dar ouvidos àquela história da avó. O primeiro, foi um caminhão de madeira.

-- que caminhão bonito você tem, menino. Me faz lembrar uma história. Vou te contar.


E começava a mesma história. Só que agora o caminhão fazia parte dela porque dizia avó que um de seus filhos teve um igualzinho.


Henrique gostou do que ouviu. Cada vez que ele trazia um brinquedo, aquela história que ninguém mais suportava ouvir ganhava uma nova roupagem e ficava mais e mais instigante. Foi assim com a bola, com o carrinho, com a peteca e com todos os outros brinquedos e objetos. E de todo dia ela perguntar como se chamava, Henrique passou a inventar nomes. Davi, Lucas, Nivaldo...


Os nomes também despertavam novas ramificações naquela velha história. Com o tempo, o menino começou a perceber que o que a vó contava fazia parte da história de seu pai, de seus tios, de seu avô. Quando perguntava seu nome, ele passou a dar o nome de um parente e assim essas novas histórias iam entrando na história.


-- você me faz lembrar meus netos e meus filhos.
-- e onde eles estão?
-- morreram
-- todos?
-- sim. Não sobrou nenhum.
-- morreram de quê?
-- morreram de não mais gostar de mim.


Henrique parou por um tempo e ficou pensando.


-- se você quiser eu posso ser seu neto.
-- melhor não. Não quero que você morra.


Ela percebeu que ele ficou tristinho.


-- mas pode me chamar de vó, se quiser.
-- tá bom. Vamos brincar na pia do banheiro?
-- eu faço os barquinhos.
-- eu quero ser o comandante!
-- só se eu puder ser a mocinha!

Não foi difícil para Henrique perceber que era preciso morrer a cada noite, ao despedir-se da avó, para renascer no dia seguinte com outro nome e trazendo mais objetos para que pudesse ouvir uma nova mesma história.


Autoria: Everson Bertucci