quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dia da Consciência Negra

Poesia, Dança, Música, Teatro e Contação de História em Homenagem à Cultura Afro
No dia da Consciência Negra (20), a cidade de São Paulo estará repleta de atrações artísticas em comemoração à cultura afro-brasileira. A Casa das Rosas, o Museu do Futebol e o Museu Afro Brasil prepararam uma programação especial para esta data. Na Casa das Rosas, a celebração fica por conta do projeto Rimas de Zumbi, seguido do Grupo Camiranga, o Sarau Chama Poética e o show do Grupo Curima. O Museu do Futebol oferecerá atividades focadas na história da aceitação de negros, mulatos e mestiços no futebol, enquanto o Museu Afro Brasil trará duas encenações comandadas pelo grupo Os Cão de Jacobina.

Quatro atrações de grande relevância passarão pela Casa das Rosas no Dia da Consciência Negra. A comemoração começa, às 15h, com a mostra de algumas artes que fazem parte do musical Rimas de Zumbi, idealizado pelo Grupo Massala Diversidade Cultural. Em seguida, será a vez do Grupo Camiranga, formado pelo compositor, cantor e violonista Léo Nascimento, pela cantora e letrista Fernanda Paula e pelos percussionistas Matheus Prado e Rômulo Albuquerque.

No sarau, que se iniciará às 18h, música e poesia serão o cenário para cantores e declamadores prestarem homenagem à cultura negra. O cantor, declamador e escritor José Domingos cantará alguns afro-sambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell, além de declamar alguns textos. O encerramento fica por conta do Grupo Curima, que fará uma releitura de canções da tradição afro-brasileira e também compõe curimbas (rezas cantadas) com base na vivência do intérprete Paulo Brito na cultura Yorubá e da diversidade musical de seus componentes.


Enquanto isso, o Museu do Futebol, por meio de fotografias, vídeos e experiências sensoriais, mostrará aos visitantes como o futebol, que foi trazido ao Brasil sete anos após a Abolição da Escravatura, por membros da elite branca, demorou a aceitar negros em seus clubes. Proibia-se a presença de trabalhadores braçais, ou seja, a população que não pertencia à aristocracia da época. Contudo, o esporte foi ganhando em popularidade e os campos tiveram de ampliar seus limites para um mar de diversidade cultural.

Jogos e contação de história também fazem parte da programação do Museu. A atividade Mapa Mundi pretende levar o público a refletir sobre assuntos como o caráter comercial adquirido pelo futebol no século 21 e a contação de história será baseada no texto criado pelos educadores da instituição e terá duas intervenções, às 11h e 14h.

Paralelo a isso tudo, no Museu Afro Brasil haverá encenações, lançamento de livro e a abertura de uma exposição. A primeira encenação, Os Cão de Jacobina, às 17h, é de um grupo que sai pelas ruas durante a micareta de Jacobina, onde Os Cão e um Anjo encenam a disputa por uma Alma, tendo um como vencedor. Estes personagens risonhos, chifrudos e com dentaduras postiças são representados por brincantes da cidade, que se pintam de preto e saem fazendo algazarra, gritando e cantando.

A segunda encenação, Nego Fugido, às 18h, traz homens de rostos pintados com pasta de carvão, roupas de palha ou folha de bananeira. Eles saem à rua brincando e mostrando a sua impressão sobre a história, transmitida pela tradição oral, da liberdade da escravidão. Escravos, senhores, capitães-do-mato são personagens da fuga, da captura e da luta pela liberdade.

Às 19h, é a vez da abertura da exposição Eu Tenho um Sonho – De King a Obama, a Saga Negra do Norte, com obras dos artistas Alex Hornest, Antonio Helio Cabral, Baravelli, Claudio Tozzi, Dias Sardenberg, Futoshi Yoshizawa, George Preston, Ivald Granato, Newton Mesquita, Peticov e Siron Franco.Também às 19h, será o lançamento do Livro Textos de Negros e Sobre Negros, organizado por Emanoel Araujo.

Ufa! Quanta coisa!

Por Everson Bertucci

Publicado originalmente no site www.cesargiobbi.com.br, no dia 20 de novembro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

NOVA MESMA HISTÓRIA

Há muito tempo a avó foi ensimesmando e aos poucos, perdendo a memória. Não lembrava do dia anterior, da ação anterior, da palavra anterior.

Era preciso alguém que cuidasse dela, pois já não distinguia muito bem os objetos. Dava-lhes outros nomes, e era dada a achar que a água do vaso sanitário era encantada.


-- ela faz as coisas voltarem.


Também tinha ímpetos de querer pular a janela.

-- do lado de lá tem muita vida, dizia.


Puseram grades na janela.


Além desses cuidados especiais, a avó costumava contar todos os dias a mesma história: que foi casada com um general, teve treze filhos, que dois deles morreram na guerra como bravos heróis e que os girassóis lhe traziam uma grande tristeza.

Na família ninguém mais tinha paciência de ficar tomando conta dela. Ter de ouvir a mesma história várias vezes ao dia e se atentar para que não mexesse na água do vaso sanitário.
Henrique, de 9 anos, era o único que sobrara para cuidar da avó. Seus pais o obrigaram. Detestou a idéia, mas não havia escolha. Prometeram uma boa mesada.


-- você sabia que eu gosto de docinho? Perguntava a avó ao neto.


Ele não respondia. Ficava sentado entretido com os joguinhos do celular.

-- pois é, eu gosto demasiado de docinho.


Henrique nem ouve.


-- você nunca fala?


Silêncio.


-- como você se chama?


Meio irritado, responde.


-- Henrique.
-- ah, você fala sim. E tem uma voz bonita! E se fala, ouve. Vou te contar uma história.

E contava. Dia após dia a mesma história. Enquanto contava, se dirigia ao banheiro.


-- Vó, não vai mexer na água do vaso, viu?! É suja!


Ela parou na hora e ficou pensativa. Virou a cabeça na direção do neto, o olhou bem e disse:

- Vó?! Mas eu não sou sua vó. Te conheci agora.


E ficou espantada. Henrique, para não se estender no assunto...


-- Ah, é verdade. Eu devo estar ficando louco.


Ela até esqueceu que estava indo ao banheiro e voltou. Os dias passavam e ela contava para Henrique a mesma história, que entretido com seus joguinhos no celular, mal escutava. Até o dia em que foi tentar impedi-la de mexer na água do vaso sanitário e o celular caiu lá dentro e pifou.


Como não tinha mais como se distrair com seus jogos eletrônicos, começou a levar alguns brinquedos para não ter que dar ouvidos àquela história da avó. O primeiro, foi um caminhão de madeira.

-- que caminhão bonito você tem, menino. Me faz lembrar uma história. Vou te contar.


E começava a mesma história. Só que agora o caminhão fazia parte dela porque dizia avó que um de seus filhos teve um igualzinho.


Henrique gostou do que ouviu. Cada vez que ele trazia um brinquedo, aquela história que ninguém mais suportava ouvir ganhava uma nova roupagem e ficava mais e mais instigante. Foi assim com a bola, com o carrinho, com a peteca e com todos os outros brinquedos e objetos. E de todo dia ela perguntar como se chamava, Henrique passou a inventar nomes. Davi, Lucas, Nivaldo...


Os nomes também despertavam novas ramificações naquela velha história. Com o tempo, o menino começou a perceber que o que a vó contava fazia parte da história de seu pai, de seus tios, de seu avô. Quando perguntava seu nome, ele passou a dar o nome de um parente e assim essas novas histórias iam entrando na história.


-- você me faz lembrar meus netos e meus filhos.
-- e onde eles estão?
-- morreram
-- todos?
-- sim. Não sobrou nenhum.
-- morreram de quê?
-- morreram de não mais gostar de mim.


Henrique parou por um tempo e ficou pensando.


-- se você quiser eu posso ser seu neto.
-- melhor não. Não quero que você morra.


Ela percebeu que ele ficou tristinho.


-- mas pode me chamar de vó, se quiser.
-- tá bom. Vamos brincar na pia do banheiro?
-- eu faço os barquinhos.
-- eu quero ser o comandante!
-- só se eu puder ser a mocinha!

Não foi difícil para Henrique perceber que era preciso morrer a cada noite, ao despedir-se da avó, para renascer no dia seguinte com outro nome e trazendo mais objetos para que pudesse ouvir uma nova mesma história.


Autoria: Everson Bertucci

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O UNIVERSO MÁGICO DA ILUSTRAÇAO - escrito para a revista CUPIM

Uma viagem lúdica através das impressoes e traços do ilustrador Adams Carvalho
A ilustração sempre esteve presente em sua vida de Adams Carvalho. Ele nos conta que, como toda criança, gostava de desenhar, a diferença é que: “eu apenas não parei. Pra mim era um extensão das brincadeiras. Acho que continua sendo”, afirma.

Formado em pintura, pela ECA-USP e apaixonado por cinema – mais do que qualquer outra linguagem – segundo ele mesmo, sua maior fonte de inspiração é a fotografia. Talvez por isso, em muitas das suas obras, há a impressão de estarmos próximos de um retrato quando nos deparamos com a preciosidade dos traços, a singeleza dos olhares, a força das expressões, a vivacidade das cores, as particularidades gestuais, a naturalidade dos movimentos.

No início da carreira, Adams apenas pintava. “Mas achei esse universo um pouco fechado e limitado, o circuito em galerias e espaços institucionais. Comecei a querer trabalhar com outros suportes como a ilustração e a animação, que atingem outros públicos e tratam de assuntos diferentes”, diz.

Mas quando perguntado sobre que tipo de trabalho mais gosta de fazer, nos revela que se diverte entre as ilustrações, pinturas e animações. “Gosto de todas, indistintamente. Pois cada uma tem seu espaço e não acho nenhuma melhor, mais importante ou mais gostosa de fazer”.

Entre as principais referências estão as fotografias e stills de filmes. Na pintura e desenho, demonstra preferência pelo trabalho de Hopper, Degas e Toulouse Lautrec. “Gosto dessas referências mais clássicas, apesar de achar que já não existem mais fronteiras de gêneros”.

Há três anos Adams ilustra para a Folha de São Paulo, onde entrou através de concurso, sendo um dos cinco finalistas. Foi quando o chamaram para ilustrar a coluna do Gilberto Dimenstein e a Revista da Folha, permanecendo até hoje.

Seu contato com a ilustração infantil aconteceu quando convidado para ilustrar o livro “No Meio do Caminho Tinha uma Luz”, de Débora Brenga. “Foi meu primeiro trabalho de ilustração editorial e o primeiro, e único, até agora”, diz. Sobre esta experiência ele complementa: “fiquei feliz com o resultado, as ilustrações são bastante pictóricas, iluminadas, curiosas, com imagens que nasceram de um ponto de vista diferente, assim como o texto da Débora”.

Sobre a ilustração no universo infantil, nos conta: “eu adoro. Imensamente. O meu tipo de trabalho não tem a ver com esse universo, infelizmente. Mas chego a achar que a ilustração infantil é tão, ou mais, importante do que a ilustração adulta”. E explica: “pois atinge as pessoas no começo de suas vidas. É aí que começa a fazer a diferença na vida das pessoas”.
Alguns de seus trabalhos podem ser visualizados no site http://www.adamscarvalho.com/
o lado lúdico

Quando resolvi escrever sobre ilustração, foi pensando no universo mágico que esta arte é capaz de produzir. Ainda criança, como a maioria, era fascinado por desenhos. Como ainda não sabia ler, ficava folheando os livros infantis em busca de ilustrações e, a partir delas, montava as histórias na minha cabeça. Era o meio de transporte para o universo que eu gostaria de ficar para sempre.

Lá eu podia fazer o que quisesse, na hora em que desejasse e com quem eu bem entendesse. E assim eu fazia. Mergulhava de corpo e alma num mundo cheio de vida, de cores, de doces, de alegria e de brincadeiras. Me empanturrar de pipoca, me lambuzar de chocolate, me entupir de leite condensado, lamber a forma de bolo da vovó e o melhor, não ter dor de barriga, nem nenhum adulto chato me dizendo “não pode isso, não pode aquilo”.

Havia os amigos imaginários e os longos diálogos com os personagens de Monteiro Lobato, representados pela esperta Emília. Vinha também o Fominha, o Desastrado, o Gargamel com seu gato Cruel (dos Smurfs), o Coração Valente, o Malvado e a Laurinha – com sua deliciosa voz esganiçada (Ursinhos Carinhosos). Tinha também a Magali, o Cascão e o Chico Bento (Turma da Mônica) e muitos outros.

Nesta atmosfera era possível fazer uma viagem quixotesca nos cavalos-de-cabo-de-vassoura, sem receio de cair; subir no galho mais fino e alto dos pés-de-manga, sem medo de se estatelar no chão; me transformar em Super-Homem e sair voando quando minha mãe vinha com aquela vara verde me sapecar a bunda. Enfim, era possível fazer mil estripulias numa mescla de inocência, esperteza e um toque sutil de malvadeza.

Bom seria se os adultos não perdessem essa beleza infantil, o poder de se divertir e se fazer colorir por tão pouco. Apenas um traço, um desenho, uma figura, uma ilustração é suficiente para transportar uma criança para dentro do céu, do seu próprio céu. E lá poder exercer a função de ser feliz, a função que ninguém poderia lhe tirar, a função única de ser criança.

Principais Trabalhos de Adams Carvalho

Livros: “No Meio do Caminho Tinha uma Luz”, de Débora Brenga; “O Tempo das Surpresas”, de Caio Riter e "Turbilhão em Macapá”, de Ivan Jaf.

CD’s: Duofel; Francisco Forró y Frevo”, de Chico César e “Pode Entrar”, de Ivete Sangalo [ainda não lançado].

Teatro: Toda programação gráfica do grupo “Comida dos Astros” e “Minha Nossa”, de Renata Sofredinni.

Cinema: “Olho de Boi”, de Hermano Penna.

Revista: Rolling Stone, Revista da TAM e Contra-Relógio.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

OITO VELHINHAS - conto

Nove ratinhos nasceram numa só ninhada no porão escuro de uma casa onde moravam nove velhinhas que cuidavam de nove galinhas. As velhinhas eram muito supersticiosas e acreditavam que quando uma delas morresse e o número nove fosse desfeito, a paz e a tranqüilidade não mais reinaria naquele lar onde o nove era um amuleto. Nove colheres, nove garfos, nove facas, nove cadeiras, nove xícaras, nove gatos, nove escovas de dente, nove camas, nove... nove... nove...
Suas visitas eram agendadas sempre obedecendo a regra. Cada uma só poderia receber uma única pessoa por visita e todas no mesmo dia e no mesmo horário, totalizando nove visitadores por vez. Caso houvesse uma desistência, cancelamento geral.

As velhinhas nunca souberam e nem poderiam saber que coincidentemente nove ratinhos nasceram em seu porão. Se soubessem, certeza que cuidariam para que suas vidas fossem preservadas com afinco. Do lado de fora da casa, os nove gatos salivavam com o cheiro forte de carne nova. Mas o porão era fechado a nove chaves e não havia buracos grandes em que pudessem entrar e se deliciar com a ninhada. Os dias foram passando e os ratinhos cresceram um pouco.

As nove eram muito religiosas e apegadas a diversos santos. Passavam tardes e noites orando. Dois detalhes as diferenciavam de outras senhoras. Primeiro, cada uma era devota de nove santos distintos e a eles faziam seus pedidos fervorosos. Segundo detalhe, o pedido feito aos nove santos. Desejavam a mesma e única coisa: que a morte viesse o mais breve possível e as levasse.
Mas elas não queriam morrer juntas, não era esse o desejo. Era morrer primeiro, era ser a primeira a morrer, pois enquanto as nove estivessem vivas, não teriam problema algum, mas a partir da morte da primeira, o caos se instalaria na casa para as outras e toda espécie de pestilências e mau agouro cairia sobre as oito. Apenas uma delas teria o privilegio de morrer tranquilamente: a primeira.

Um dos ratinhos nasceu cego. Vivia perdido no ninho e vez ou outra era pego pela mãe andando perdido pelo porão e seus pequenos buracos. Numa dessas andanças ele foi parar na cozinha onde as nove velhinhas tomavam seu café da manhã enquanto um dos gatos, o mais distraído, dormia embaixo da mesa. Andando pra lá e pra cá, o ratinho meio tonto - pois tinha apenas poucos dias de vida e nenhuma facilidade em identificar o mundo onde foi jogado - ficou tentando identificar algo familiar.

Uma das velhinhas levantou para pegar um copo de água no filtro e sem querer pisou no ratinho, escorregou, bateu com a cabeça na quina da mesa, caiu e morreu. O gato acordou com o barulho, percebeu os restos do pobre infeliz e saiu lambendo o que sobrou daquele saboroso café da manhã frente ao desespero das outras oito velhinhas condenadas por nao ter sido a escolhida pela morte que resolveu passar pela casa às nove horas, nove minutos e nove segundos do dia nove do nove de dois mil e nove.
Autoria: Everson Bertucci

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

AQUELA MULHER - conto


Olhei pro lado e vi Eulália. Até então não sabia seu nome. Só soube muito depois. Aparentemente tínhamos o mesmo propósito.

-- Vai se matar também?
-- Tô pensando, disse-me ela.
-- A vida é uma droga, né?!

Eulália pensou um pouco e disse:
-- Ah, a vida até que é bacana, o problema são as pessoas.
Passei a refletir sobre o que ela disse e lhe dei razão.

-- Será que dói muito quando se cai lá embaixo?
-- Dizem que dói... mas acho que nem dá pra saber direito. É tão rápido. O problema é se sobreviver.
-- Ah! Mas será que se sobrevive?
-- Eu soube de um cara que sobreviveu.

Fiquei aterrorizado.

-- Tá vivo até hoje. Parece que tava passando um caminhão de verduras na hora, ele caiu em cima e amorteceu a queda.
-- Que azar! E será que ele nunca mais tentou?
-- Ah, não! Deve ter ficado traumatizado. Mas deve ser uma super adrenalina pular dessa altura, já pensou?
-- Ah, não! Tenho medo de altura.
-- É a sua primeira vez?
-- Terceira
-- Sério?
-- No duro.
-- Por quê?
-- Estou apaixonado por uma mulher que não me ama.
-- E pelo jeito ela é linda!
-- Nada. É feia, chata, cheia de manias e mal humorada. Mas me apaixonei por ela. Não sei explicar.
-- Sei. E por que não se matou das outras vezes?
-- Na primeira vez porque uma velhinha percebeu que eu ia me matar e disse que se eu fizesse aquilo Deus ia me mandar direto pro inferno.
-- Desistiu por causa disso?
-- Ela foi bem enfática, me assustou.
-- E como ela era?
-- Velha! Gorda, baixinha, cabelos brancos... tava com uma roupa bonita!
-- branca?
-- Não. Era roxa. Por quê?
-- Ah, sei lá, se estivesse de branco, podia ser Deus disfarçado.
-- Que ideia!
-- Vai saber.
-- Será que podia ser Deus?
-- Não. Você não falou que ela estava de roxo?
-- Ah, é verdade!
-- Será que era uma bruxa?
-- Ah, não. Era feia, mas não tinha cara de bruxa.
-- Que ingenuidade a sua. Hoje em dia bruxa pode ter qualquer cara, nariz bonito e tudo.
-- Ah, é? Nem imaginava.
-- E da segunda vez, por que desistiu?
-- A velhinha apareceu de novo e disse a mesma coisa.

Eulália fica meio desconcertada e olha para os lados como que preocupada se alguém se aproxima.

-- Será que ela vai aparecer de novo?
-- Acho que não. Já tô aqui há mais de meia hora. Das outras vezes ela sempre aparecia rápido.
-- E por que você não pulou ainda?
-- Ah, tava esperando pra ver se ela aparecia. E você, por que não pula logo?
-- Não tenho coragem. Acha que a velhinha ainda vai aparecer?
-- Acho que não.
-- Talvez ela tenha vindo disfarçada.
-- Creio que não.
-- Vai pular mesmo?
-- Vou. A velhinha não apareceu.

Eulália me estende a mão e completa:

-- Desiste.
-- Não posso. Tá doendo muito.
-- Desiste. Vem comigo.

Me sinto intrigado com aquela mulher misteriosa e pergunto:

-- Quem é você?

Eulália me responde bem enfática:
-- Eu sou a velhinha e Deus vai te mandar direto pro inferno se pular dessa ponte.

Ficamos nos olhando fixamente por alguns segundos. Entendo a brincadeira e caímos na gargalhada. Agora sim, tínhamos o mesmo propósito.
E dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!
Autoria: Everson Bertucci

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A ANGÚSTIA - conto

Pensou que acordar balzaquiana seria algo terrivel. Tinha razão. Decidiu passar a noite no cinema. Foram três filmes pela madrugada. Um após o outro, quase sem interrupção. Pelo menos enquanto os filmes passavam não sentia nada. Suas primeiras horas, com a nova idade, foram comuns. Nada de novo, inclusive o fato de ter de lembrar alguns amigos que era seu aniversário e que tinham que fazer aquelas velhas cerimônias de abraço-beijo-parabéns! Os filmes eram bons, as companhias, idem.

Fim da maratona. Um café. Risos. Abraços. Despedida. Do lado de fora do cinema, pelo vidro, o sinal da chuva no asfalto. Ainda havia uma leve garoa. São Paulo. Decide ir para casa caminhando, para refletir, processar os filmes. Apesar de ter passado a noite em claro, ainda havia muita energia e excitação.

Entra por uma rua, por outra... a chuva começa a engrossar. Até pensa “poxa, Deus, hoje é meu aniversário!”. Ele devia ter mais o que fazer. Não pára. Pensamentos. Logo percebe a presença de alguém se aproximando. Fica com receio, mas continua andando. A chuva não cessa. É do sexo feminino, atraente, misteriosa. Está do outro lado da rua e observa. Não se encaram.
A chuva impede que a manhã se aproxime. Mesmo chovendo, a cidade movimenta-se. Mendigos nas calçadas. Transeuntes. Buzinas. E aos poucos todo aquele clima a domina. Várias imagens vem à tona. Adolescência. Ganhos e perdas. Erros e acertos. O choro é inevitável. Do outro lado, a outra a segue.

A vantagem de chorar na chuva é a impossível distinção entre o que é lágrima e o que é chuva. Se misturam. Mas a outra parece distinguir.

Ela sempre procura um motivo para chorar. Não tem o hábito, mas gosta. O dessa ocasião, era pela partida de uma amiga, para longe. As lembranças do passado, as vivências, as descobertas. Mas tudo poderia ser apenas um pretexto para o choro se iniciar, um pretexto para a reflexão. No momento é doloroso, mas a sensação posterior de alívio e leveza reconforta.
A presença da outra que a segue é incômoda. Não há medo, pois existe uma familiaridade ali, embora indecifrável. Já perto de sua casa o choro passa. A outra faz um aceno e segue por outra rua. Desaparece.

O casaco já estava todo molhado, mas pela espessura não atingiu sua pele. Está muito frio. Chega em casa, entra, se seca adequadamente e vai para debaixo dos cobertores.

As gotas fortes no telhado prenunciam a chuva que jamais cessará.

Autoria: Everson Bertucci

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ESCULTURA SEM TÍTULO 6 - fluxos

De que adianta pensar na dor do mundo na angústia da vida na velocidade atroz que o som atravessa as cordas do balanço na maldade infinita da existência da obscuridade no corte abrupto da asa na necessidade de correr e não parar com a vontade de ninar o mundo no colo no desejo de vomitar o ácido que corrói o aço de costurar os fios injustamente rompidos pelo aceleramento das batidas do coração do beija flor encarcerado na solidão devastadora do barulho da suspensão do vermelho doce das amoras em abraçar a poça de lama que rodeia a atmosfera branca do buraco que precisa ser detido pelo oxigênio que sufoca no cinza da fumaça verde da palavra disfarçada com adereços sedosos da vivacidade da imperfeição se as mãos estão atadas pelo fino fio da impotência?
Autoria: Everson Bertucci