quarta-feira, 24 de março de 2010

George & Jim

Um olhar sobre o primeiro longa de Tom Ford



A safra de filmes com temática homossexual tem crescido consideravelmente, embora seja a maior parte voltada ao universo masculino. Recentemente o cinema nacional abordou o romance incestuoso entre dois irmãos, e no início do mês chegou às telas do país o primeiro longa do estilista e agora diretor Tom Ford. Trata-se da história de George (Colin Firth), um professor de meia idade que não se acostuma com a morte se seu companheiro Jim (Mattew Goode), que morreu num acidente de carro. Após o rompimento forçado de seu relacionamento, o professor passa a sentir a dor da perda de seu grande amor e passa a conviver com a incapacidade de lidar com isto. Essa é a trama principal de A Single Man, que aqui no Brasil ganhou o título Direito de Amar.

O filme fala sobre os medos que afligem uma pessoa, seja ela quem for. Já parou para pensar quais são os seus medos e se seria possível lidar com eles, encará-los? Quem estiver esperando uma trama cheia de cenas picantes e corpos se roçando, pode se decepcionar. Ford está muito mais para as entrelinhas do que para o óbvio, muito mais para a beleza do que para o grotesco, muito mais para o romantismo do que para o imediatismo, muito mais para a sensualidade do que para o apelativo. O longa aborda entre outras coisas, a durabilidade de um relacionamento homossexual, um relacionamento verdadeiro que é rompido bruscamente por uma fatalidade.

O perfeccionismo do diretor no mundo da moda se reflete claramente no filme. Está tudo impecável, do figurino aos penteados. A vida de George está muito lenta e é assim que ele passa a ver o mundo que o cerca. Seus sentidos estão aflorados e tudo passa a ser percebido por ele. Os detalhes, os olhares, os gestos, os odores, as lembranças. Oito meses sem Jim não foram suficientes para acalmar seus ânimos. O tempo parece ter aflorado suas angústias, o levando ao precipício. Direito de Amar vem na contramão dos relacionamentos vazios e meramente quantitativos. George não se deixa levar pela oferta de sexo fácil na tentativa de aliviar momentaneamente sua dor, que no senso comum seria a solução mais viável e certeira de agradar o público.

Tudo está muito à flor da pele pelo fato de ter vivido um grande amor que durou 16 anos e só foi interrompido pela morte trágica. O filme não fala exatamente sobre o amor, mais sim sobre a ausência dele em tempos em que a durabilidade de um relacionamento é ínfima. Nessa era de deixar aflorar apenas os desejos carnais e a experimentação cada vez mais acelerada por relações frívolas e sem nenhum compromisso, Direito de Amar apresenta sutilmente a possibilidade de levar uma história de amor por longos anos, principalmente ao se tratar de um relacionamento homossexual, que geralmente não são duradouros.

domingo, 21 de março de 2010

Durabilidade e Frivolidade - conto

Rafael conheceu Jonas numa boate. Mal deu tempo de se atrair direito porque Jonas se aproximou de forma tão rápida que o primeiro beijo veio sem muito pensar. Bom o suficiente para continuar por muitos minutos. Jonas estava regido pelo álcool. Rafael, pelo romantismo de sempre e pela insistência em acreditar que ainda possa haver beleza nas ações das pessoas. Mas logo Rafael percebeu que o lance de Jonas era apenas diversão e sexo, mas naquele momento era conveniente aproveitar e se divertir enquanto durasse o efeito do álcool.


Jonas logo tratou de sentir de perto o quanto Rafael estava excitado. E ele realmente estava e a coisa foi esquentando tanto que logo estavam trancados no banheiro e o sexo foi apenas consequência. Após o ato, Rafael pensou que dali cada um seguiria seu rumo, como acontecia sempre, mesmo contra sua vontade. Mas foi surpreendido pela atitude de Jonas, que mudou bastante seu comportamento. Foi ficando mais carinhoso, atencioso, jovial. Foram para a pista e ficaram dançando a noite toda. Seus beijos foram embalados pelos mais empolgantes flashbacks.


Rafael sabia que estava consciente e como sempre ficou fantasiando uma relação posterior. Sabia que as chances eram pequenas, mas sempre preferiu acreditar nas possibilidades. Já havia se decepcionado em tantas outras histórias, mesmo assim nunca deixou de acreditar que assim como ele, deveria existir mais alguém no mundo que também estivesse procurando alguém para namorar, para curtir, e para dividir uma história. Não queria sair dali e pensar que sua chance estaria vindo de forma torta. Resolveu apostar, principalmente porque Jonas estava se entregando e parecia mesmo de verdade.


Continuaram dançando com mais alguns amigos de Jonas até que o dia amanheceu e tiveram que sair. Na rua, ficaram abraçados enquanto conversavam numa esquina. Rafael ouvia a conversa de Jonas e de seus amigos, também alcoolizados. Eles riam de tudo, falavam sem parar e mesmo se sentindo um estranho naquela situação, quis ficar e aproveitar os momentos bons que estava vivendo. Jonas continuou carinhoso e Rafael resolveu se dar uma chance. Aceitou de prontidão o convite de Jonas de irem a uma festa de aniversário com pessoas que nunca poderia encontrar numa outra situação.


No aniversário, foi recebido por Jonas com um beijo caloroso, um abraço forte e em seguida o deixou sozinho para que interagisse com as outras pessoas, mas Rafael não conseguiu. Ficava quieto nos cantos, disfarçava um sorriso para um, um gole de cerveja com outro, uma frase, um gesto leve. Mas, e Jonas? Se divertia e conversava com todos, menos com Rafael. Vez ou outra passava, dava um beijo e saía para curtir. Rafael se sentiu só, mas tentou compreender que esse era o jeito de Jonas. Mais tarde, eles se entenderam, foram para um quarto e deixaram o desejo tomar conta de si. Dormiram. No dia seguinte foram embora juntos. Poucas palavras. Era o fim, pensou Rafael.


Estava enganado. Logo que se separaram recebeu uma mensagem de Jonas, em seu celular. Era uma daquelas frases bonitinhas, capazes de destruir qualquer possibilidade de indiferença. Ficou feliz e retribuiu. E assim foram dezenas de mensagens durante toda a semana. Novamente se encontraram na mesma casa da festa do aniversário, só que agora ,com bem menos pessoas. Para tentar um entrosamento com o pessoal, resolveu tomar seu primeiro porre. O vinho mais vagabundo. Todos beberam, fumaram. Não queria acreditar que Jonas não era para uma pessoa apenas. Era do mundo.


Mesmo com todas as evidências, continuou acreditando que a história deles poderia ter continuidade pela força de seus beijos. Mesmo estranhando um pouco, Rafael curtiu o momento e procurou não ficar questionando muito. Dormiu num sofá qualquer sob o efeito do vinho. Acordou super cedo com a cabeça latejando. Ai, isso é que é a tal da ressaca, pensou interrogativamente. Mesmo depois de tudo, Rafael e Jonas foram embora juntos novamente. Rafael sempre se perguntando o que aconteceria após se separarem. Nem precisou pensar muito. Minutos depois seu celular apitou. Era mensagem de Jonas. Ficou feliz.


Continuaram se falando durante a semana. Não tocaram no assunto e marcaram uma balada na sexta. Foram juntos e Jonas mantinha sempre uma certa distância. Na boate, Jonas se demonstrou muito distante, embora estivessem juntos o tempo todo. Rafael não entendia por que Jonas dançava com todas as garotas da festa, se apresentava e ficava logo amigo de todas elas e o deixava em segundo plano. Várias garotas foram se aproximando e entravam na roda para dançar com ele. Rafael não sabia lidar direito com a situação e tentava disfarçar um sorriso, mas no fundo estava se sentindo sozinho. Jonas dava selinhos e dançava coladinho a todas. Mal sabia ele que Rafael estava querendo a mesma coisa.


Num momento, o casal foi para outro ambiente com duas garotas que Jonas tinha conquistado a amizade. Enquanto Rafael conversava com uma, Jonas conversava com a outra, até que Jonas a beijou na frente de Rafael, que não soube reagir. Não sentiu ciúme, sentiu-se só. Eles estavam juntos, e novamente Rafael tentou ficar bem perante aquela cena desagradável. Depois conversaram e Jonas disse que foi apenas um beijo e justificou: ela é mulher e estava carente! Jonas reafirmou que estavam juntos, mas que poderiam beijar mulheres, só não poderiam beijar homens. Rafael entendeu e como estava combinado, não se importaria mais.


De volta à pista, refletiu e chegou à conclusão que após aquela noite daria um basta e que não mais se submeteria a uma situação assim. Gostava muito de Jonas, mas teria que gostar mais de si próprio. Procurou se divertir também com outras garotas, dançou. O problema é que Jonas tinha uma vivacidade, uma energia e um jeito tão especial de tratar as pessoas que Rafael não sabia direito a que conclusão chegar. De repente, passa entre eles um jovem cadeirante. Uma moça empurrava a cadeira de rodas e as pessoas abriram caminho para ele passar. O rapaz estava super feliz, dançando em sua cadeira e Jonas não hexitou: começou a interagir com o jovem e os dois começaram a dançar.


Jonas segurou a mão do rapaz e os dois dançaram. Jonas rodava a cadeira, rodopiava, beijava a mão do rapaz. O cadeirante estava visivelmente encantado com a abordagem tão gentil. Rafael se sentiu desarmado. Como posso me deixar levar por tanta mesquinharia perante esse gesto tão nobre, se perguntava ele, que havia se deparado com o que de mais belo poderia encontrar em seu caminho. Possivelmente Jonas nunca saberá que aquele ato ficou imortalizado na cabeça de Rafael. Uma das cenas mais bonitas já vistas por ele. Tudo se tornou muito pequeno perante todas as outras coisas.


Eles voltaram pra casa juntos. Logo ao se separarem, a mesma dúvida de sempre: será que vai continuar? Dois minutos depois uma mensagem no celular sinalizava que sim. E outras e outras e outras. Até que Jonas sumiu por um dia. Ficou sem responder mensagens, sem se manifestar e Rafael percebeu que estava muito mais envolvido do que imaginava. Depois Jonas mandou uma mensagem com uma desculpa que Rafael não acreditou, nem questionou. Não se achou no direito, preferiu calar. E continuaram trocando mensagens carinhosas, envolventes. Dois dias depois marcaram um encontro.


Se encontraram e Jonas avisou Rafael que a garota que ele tinha beijado, naquela balada, também participaria do encontro. Tinham se tornado amigos. Rafael não soube direito o que fazer, nem tinha. Foram caminhando até onde haviam marcado e ao atravessar a rua Jonas disse que gostava muito dele, mas que deveriam ser apenas amigos. Rafael já havia tido todos os sinais possíveis e não quis acreditar neles. Não disse nada. A garota chegou, se cumprimentaram, foram para um bar. Conversaram civilizadamente. Depois de alguns minutos Rafael se despediu do casal e foi para sua aula sabendo que o mundo que o cerca não vai mudar, assim como sabia que esse mesmo mundo não o faria deixar de acreditar nas possibilidades de uma história de verdade. E seguiu caminhando.

terça-feira, 2 de março de 2010

Dourado x Angélica no BBB 10


Eliminação de lésbica causou discussões envolta da temática homofóbica


A eliminação da sister Angélica, ex-participante do BBB 10, da Globo, gerou diversos questionamentos sobre preconceito e intolerância que repercutiu não só no Brasil, como no mundo. O fato foi que o sétimo paredão, envolvendo os outros dois brothers Dourado e Dicésar, vai muito mais além do que um veredito de homofobia.

Não dá para ficar julgando que a rivalidade entre Dourado e Angélica tenha sido fruto de preconceito sexual. É só voltar a fita e ver que os dois estavam se dando muito bem. Até confidentes eles eram. Quem viu deve lembrar do dia em que ela pediu a opinião dele sobre o que ele faria se estivesse gostando de alguém da casa e ele disse que não saberia agir, mas se ela sentisse abertura em relação a uma das garotas, que fosse em frente e investisse. Ele ressaltou que é muito tímido para tomar iniciativa, mas que se ela deveria agir, se sentisse vontade.

Tudo ia bem entre eles até o momento em que Dourado, numa das conversas envolvendo Lia, declarou que tinha ficado feliz por esta ter voltado do paredão que eliminou Lena. Ele disse ter ficado contente por ela ter ficado, já que a considera sua aliada no jogo. O fato do brother ter usado a palavra aliada, ao invés de amiga, deixou Angélica incomodada porque ela cansava de dizer que “jogava com o coração”, dentro da disputa. Ela o questionou e eles entraram em atrito. Nem a própria Lia se incomodou com a forma que Dourado a caracterizou, o que também incomodou Angélica. Chamar isto de homofobia é precipitar-se demais. Não foi a sexualidade o pivô da discussão. O fato de um hetero brigar com um homossexual o caracteriza em delito homofóbico?

Claro que todo esse rebuliço não anula as grosserias de Dourado. Que ele tenha proferido várias frases preconceituosas contra os gays é inegável e claramente perceptível, assim como é possível ver que o moço consegue fazer uma auto-análise e voltar atrás sobre suas declarações e comportamento. Quem é que não lembra da cena envolvendo ele e Serginho numa das refeições na casa, em que ele perdeu o apetite quando o garoto começou a falar sobre sexo envolvendo homens? Foi realmente um comentário muito infeliz da parte dele, mas que depois ele reconheceu o erro e conversou com Serginho frente a frente, reconhecendo a grosseria e se desculpando. Se tudo não passou de jogo é outra história.

O fato dele ter declarado abertamente que gostaria que Angélica deixasse o jogo foi porque ela,que se dizia “jogar com o coração”, foi contar toda a história para outros participantes e combinar voto para colocá-lo no paredão. Isso é jogar com o coração? (se é que se pode considerar frase tão infame e penosa aos ouvidos). Ele percebeu a trama de Angélica e a briga ficou ainda pior. Só porque alguém da casa vota em alguém que é gay isso o torna homofóbico? Vale lembrar que o próprio Serginho votou em Angélica, quando saíram do quarto branco, sem saber que ela já estava emparedada por decisão da casa. Lembrar também que Dicésar votou em Serginho sem saber que este tinha ganhado a imunidade do público ao permanecer por 50 horas confinado no tal quarto. Dicésar tinha a opção de votar em Cláudia, que não é lésbica, em defesa dos coloridos Serginho e Angélica, mas não o fez.

Declarações homofóbicas Dourado realmente já proferiu aos punhados na 10ª edição do BBB, assim como também está mostrando que consegue perceber seus erros, consegue discutir e ouvir os outros e parece que está aprendendo muito com isso. Mas afirmar que o Brasil é homofóbico apenas, levando em conta a eliminação de uma candidata lésbica, é no mínimo, precipitado. Talvez tenha ficado muito mais em evidência o fato de Angélica ter feito o que condenava em Dourado: a combinação de votos. Talvez o fato dela ter “causado intriga, feito fofoca”, como ele próprio acusou o tempo todo, tenha sido um dos motivos que levou à sua eliminação até porque tinha outro candidato gay no paredão, Dicésar, que ficou apenas com 7% dos 77 milhões de votos. Por que ele também não foi alvo dos votos? Vale refletir.

Sabe-se que o caso ganhou notoriedade em diversas partes do mundo e a comunidade gay se mobilizou em defesa da moça. Até o músico Boy George fez declarações e pedidos no Twitter. Ele escreveu que um homofóbico lidera o BBB 10 e pediu para que os brasileiros o eliminassem do programa, se referindo a Dourado. Se formos nomenclaturar tal declaração como poderíamos chamá-la? Heterofobia? Se for seguir a lógica usada contra Dourado, parece que sim. Mas não vem ao caso ficar inventado mais moda.

Dourado, assim como outros brasileiros não sabem lidar com a homossexualidade, mas isto não os torna homofóbicos, talvez ignorantes. Dentro da própria comunidade gay existem divergências. Tem gay que não suporta e até faz comentários maldosos em relação a outros gays. Tem gay musculoso que não tolera gay afeminado. Tem afeminado que não admite relação com gays mais reservados. Os mais reservados que não aguentam os mais cult´s. Os cult´s que não se dão bem com os mais esnobes... Assim como no universo heterossexual, mulheres e homens não se dão bem com outras mulheres e homens, mas não por causa de suas sexualidades e sim pelo convívio, pelos gostos, pelas afinidades, pelas escolhas... enfim, motivos é o que não faltam para gostar ou desgostar de alguém e nem sempre a sexualidade é o principal fator.

Se o Brasil é tão homofóbico como foi dito por várias pessoas por causa da eliminação de Angélica, como esse mesmo Brasil deu o prêmio máximo, do BBB 5, ao gay assumido Jean Wyllys? Ele venceu porque mostrou ter uma personalidade que causou identificação na maioria do público. Mostrou seu caráter, seu carisma, sua autenticidade e sua simpatia, independente da sexualidade. Ele não foi eleito por ser gay. Foi eleito por ter demonstrado saber conviver, respeitar e se relacionar com o outro da forma mais íntegra possível. Outros candidatos homossexuais passaram pela casa, em outras edições e foram eliminados como outros tantos heterossexuais que nada ou pouco tinham a acrescentar ou a mostrar. E assim continuará sendo.

Everson Bertucci

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Dentro de In On It

Peça em cartaz no Teatro Faap traz de volta à cena paulistana trabalho de Enrique Diaz


Uma das características do diretor Enrique Diaz é trazer ao palco questionamentos metalingüísticos. A desconstrução do texto também está entre suas características, embora em In On It isto fique mais por parte de Daniel MacIvor, quem assina o texto. Quando dirigiu Ensaio.Hamlet, em 2004 pela Cia. dos Atores, apresentando uma montagem altamente inovadora e criativa, Diaz demonstrou que o texto é uma apenas uma das muitas ferramentas que se utiliza para um espetáculo funcionar, mas para isto uma boa equipe e atores afinados e integrados são fundamentais para um resultado eficaz.

Ensaio.Hamlet - construído a partir de Hamlet, de William Shakespeare - estreou no Rio de Janeiro, e fez curta temporada, em São Paulo, no Sesc Belenzinho. No elenco estavam Fernando Eiras, Malu Galli, Bel Garcia, César Augusto, Felipe Rocha, e Marcelo Olinto. A montagem foi bem recebida pela crítica e público que levou em conta a desconstrução do clássico, a direção e a entrega dos atores. Pelo mesmo princípio de pensar o teatro dentro do teatro, em 2006, Diaz montou A Gaivota, de Anton Tchekhov, que trazia os atores Emílio de Mello, Thierry Trémouroux, Alessandra Negrini, Felipe Rocha, Lorena da Silva, Isabel Teixeira e o próprio Enrique Diaz.

Repetindo a parceria com Fernando Eiras e Emílio de Mello, o diretor traz agora ao público a peça In On It, em cartaz atualmente no Teatro Faap. A montagem prova que não adianta uma encenação cheia de efeitos técnicos e visuais se o elenco não está preparado, se o ator não foi bem conduzido e explorado para transmitir a história do personagem com verdade, de dentro. O que In On It transmite é justamente isto: a exploração do ator para que ele consiga vivenciar os personagens da forma mais simples e honesta possível. Faz com que o público veja aqueles personagens por dentro e sem uso de adereços. Na peça, os atores Eiras e Mello não precisam elementos externos para interpretar uma mulher, um velho ou um adolescente. Seus personagens vêm de dentro.

Quando Diaz lança a proposta de colocar apenas dois atores em cena e fornece a eles apenas um casaco e duas cadeiras como únicos elementos de cena é porque o fundamental ali são os atores e como eles podem se relacionar com tais objetos contando uma história que envolve várias vidas, como é o caso da montagem. São dois atores que estão discutindo a melhor maneira de conduzir um espetáculo, de construir um texto, de dar credibilidade e verossimilhança àquelas personagens.

A maioria das vidas está dentro do casaco. É de lá que elas saem. O início do jogo cênico que é proposto ao público pode parecer meio estranho, um pouco forçado, mas aos poucos os atores vão dominando a situação e acabam fazendo com que a plateia entre dentro da história, da história que está saindo de dentro deles. As rápidas transformações, as trocas de personagem, os questionamentos sobre a montagem, o andamento das cenas, o auto-questionamento sobre as interpretações, o humor. Pontos muito bem explorados pela dupla, refletindo o papel da direção.

In On It desperta sentimentos diversos. Traz à tona tristezas transformadas em poesia, em beleza. Por um instante, aqueles um pouco mais sensíveis se veem mergulhados numa das histórias com tanta intensidade que se esquecem que é tudo encenação, que são dois atores passando uma cena e se entrega de tal forma que é possível sentir uma outra atmosfera criada através da palavra, da palavra que veio de dentro. De dentro também vem o choque com a realidade quando eles jogam um balde de água fria fazendo com que toda a poesia se evapore e puxando pelos pés os que se deixaram flutuar, jogando-os novamente nas poltronas quando o fim era dado como certo. Tudo é teatro! E os aplausos... de dentro.

Everson Bertucci

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Beyoncé através dos vagalumes

A diva da música pop leva multidão ao Estádio do Morumbi, em sua única apresentação no Estado



Depois de esperar durante 1 hora e 38 minutos, terminada a apresentação da cantora Ivete Sangalo, encarregada da abertura do tão esperado show da musa pop, Beyoncé, marcado para sábado (6), no Estádio do Morumbi – as luzes do local se apagaram por completo, precedendo a entrada da cantora. Se existia cansaço nas pessoas, que tanto esperaram por ela, ele se foi num segundo, e os gritos de delírio tomaram conta do estádio. Um minuto depois, exatamente às 22h22, a cortina se abriu com o clássico efeito da fumaça... e lá estava a diva.


Os fãs foram ao êxtase e o que se via eram centenas de máquinas fotográficas, filmadoras e celulares, todos apontados na mesma direção: o palco. Era possível ver a cantora refletida nas inúmeras maquininhas, que mais pareciam uma legião de vagalumes tecnológicos. Beyoncé soltou o vozeirão e seguiu com suas canções, já bem assimiladas pelo público. Quem conseguiu observar ao redor, percebia o estádio todo iluminado com as luzezinhas azuis dos aparelhos.

Seu primeiro figurino, bem insinuante por sinal, tinha um laço na parte traseira. Há quem comentasse o mal-gosto da escolha, mas bem que alguns homens expressaram, através de piadinhas, a vontade de puxar o laço e descobrir o presente que havia ali. Logo depois, a cantora entrou toda de branco, com o mar ao fundo, no telão. Em seguida, Beyoncé foi até a frente do palco e começou a cantar Ave Maria. Foi um dos momentos marcantes do evento, cheio de efeitos visuais.

Outro desses momentos de delírio foi quando a musa pronunciou as palavras São Paulo, com seu sotaque americano. Foi aplaudida e ovacionada. Por um momento, foi como se ela tivesse dito “acabou-se a fome e a miséria no mundo”, mas era apenas o nome da cidade mesmo. Se alguém foi ao show apenas para comprovar que a intérprete conquistou sua fama pelas belas pernas, bumbum arrebitado, cabelão turbinado e rosto bonito - juntado tudo numa boa produção audiovisual -, talvez tenha se surpreendido com a performance e fôlego da estrela.

Beyoncé desceu até a plateia, passou a mão em alguns fãs, beijou camisetas e jogou para o público (tudo como o manda o figurino), perguntou o nome de um fã e o incorporou numa das músicas. Também fez homenagem ao Brasil - carregando a bandeira nacional - e fez com que a multidão se entregasse a ela, num ritual que transcendeu qualquer explicação lógica. Independentemente de ter ou não qualidade, Beyoncé conseguiu cravar seu nome na história pop da música. Se isso vai longe? Só o tempo vai responder.

Um episódio inusitado foi quando entrou um vídeo ao som da música Single Ladies, com imagens de fãs reproduzindo a performance da estrela. Crianças, adolescentes, adultos, idosos, homens, mulheres, artistas e até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fazendo estripulias das mais inusitadas e hilárias com a música. Ao final da exibição, Beyoncé entrou com seus bailarinos e finalmente cantou o último número do show. Não houve quem não cantasse o refrão. Mesmo quem não suporte a música, sabe a letra. O mais curioso era ver que, até os marmanjos, faziam a cena da mãozinha (quem conhece a coreografia sabe do que se trata).

Encerrada a música, a diva saiu de cena, mas logo voltou para o bis. Entrou cantando Halo, fez homenagem a Michael Jackson e, exatamente à 0h17 do domingo (dia 7), finalizou a apresentação. A frase I am (que dá título à turnê) estava atrás dela, no telão, e quando Beyoncé fez sinal de que era o fim, a frase foi completada com Yours. As cortinas se fecharam com os aplausos de todo o estádio. E no telão: I am... Yours.

Beyoncé deu um show de profissionalismo e, no mínimo, comprovou que sabe conduzir uma plateia sedenta de entretenimento de qualidade. Se houve playback, ele não foi percebido. O que se notava, pelos telões, era muita emoção e deslumbramento no rostos dos fãs. Homens e mulheres chorando de alegria ou sabe-se lá por quê.

Everson Bertucci

Texto publicado no dia 08 de fevereiro de 2010 no link
http://www.onne.com.br/cesar/materia/variedades/12169/beyonc-em-s-o-paulo

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Os Seresteiros da Praça da Luz



Trio faz um mergulho na cultura popular brasileira num resgate de canções antigas




Nos arredores da Pinacoteca e do Museu da Língua Portuguesa, entre cultura contemporânea e moderna, esculturas e monumentos, entre prostitutas, cafetões, bêbados, crianças, adolescentes e adultos, a Praça da Luz é cenário para um trio de seresteiros que fazem um resgate de canções populares, nas tardes de sábados e domingos, cantando e tocando músicas que, hoje, quase não se ouvem mais nas rádios.

Passear pela Praça da Luz pode tanto ser um divertimento, como estar perto e atento a um leque de opções culturais. Em frente a ela, o Museu da Língua Portuguesa oferece várias opções de conhecimento dentro da nossa língua. Do lado, a Pinacoteca disponibiliza exposições de artistas relevantes nacional e internacionalmente. E nem precisa entrar na instituição para apreciar seu acervo. No próprio parque há inúmeras esculturas espalhadas, de artistas como Lasar Segall e Caciporé Torres.

Antes de atravessar o portão que dá entrada à praça, já é possível sentir o cheiro do verde. Uma jaqueira, com frutos e repleta de folhagens, dá o ar da graça. Ao entrar, pessoas de todos os nichos circulam pelos corredores do lugar. E bem próximo ao portão, sentados num dos bancos, os seresteiros Erito de Souza Leão, de 76 anos, Felimom Franco, 69, e Antônio José Gonçalves, 67, encantam a plateia que para, ouve, se encanta e segue.

Como todo o centro de São Paulo, a Luz também se tornou um lugar de passagem, e enquanto as pessoas passam, Leão dedilha o saxofone, Franco e Gonçalves o acompanham no violão. Alguns chegam bem perto do trio, outros admiram, ficam mais de longe, se empolgam, fazem pedidos, outros, permanecem contidos, ouvindo em silêncio. Leão para o saxofone e começa a cantar. Uma voz grave, forte. Uma voz de quem já viveu e cantou bastante.

Alguns estudantes conversam com os músicos, lhes fazem perguntas, filmam, fotografam, questionam. Eles respondem, atendem, brincam, fazem piada e voltam a tocar e cantar. Num certo momento, a plateia se torna totalmente masculina. Vários homens, de diferentes idades, observam os cantores e tocadores. Seus olhares têm expressão de lembrança.

Antonio Domingos dos Santos diz que sempre passa para ouvir os seresteiros. “Ouvi-los cantar me traz muitas lembranças. Lembro da minha família, de momentos que vivi. A música tem o grande poder de marcar épocas, vidas, momentos especiais. Na minha história não foi diferente”, completa.

Tudo de mais inusitado acontece nos corredores da praça. Enquanto o trio canta, passam artistas de rua com números circenses, senhoras passeiam com seus netos, senhores negociam com as prostitutas, casais passam de mãos dadas trocando carícias. Nada afeta os seresteiros, nem o barulho da trupe do circo, tampouco o estrondo dos aviões que sobrevoam o parque.

Nostalgia

Quem viveu entre as décadas de 20 a 50 certamente irá parar quando o trio começar a tocar: “Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso...”, de Pixinguinha, ou um Samba canção de Noel Rosa, “Perto de você me calo, tudo penso e nada falo, tenho medo de chorar...”. O resgate de músicas antigas, feita pelo trio, tem o intuito de não deixar que músicas da época vivida por eles, morram. Franco diz que são canções muito bonitas e que estão caindo no esquecimento. “Podem ver que aqui chega muita gente e pede uma música, um samba canção de Nelson Gonçalves, mas tem muitos que não conhecem. Porque as músicas foram engavetadas, infelizmente, esquecidas”, diz.
Não há quem não passe e pelo menos por um minuto não pare, não fique curioso, quem não passe pelo caminho e cantarole algumas estrofes da música. “Antigamente as músicas tinham mais melodia, mais poesia, mexiam com as pessoas, com seus sentimentos. O Nelson Gonçalves tocava violão, cavaquinho, pandeiro. Assim como a banda Demônios da Garoa ainda mantém essa tradição”, declara Franco.
É começar a dedilhar a introdução de alguma música que as pessoas que estão passando param, fazem roda, conversam com os músicos, fazem escolhas - são exigentes - dão palpites. A Música começa nos primeiros acordes no sopro do sax, logo em seguida os dois violões acompanham. Se ouve Cartola, Pixinguinha, Ary Barroso, Chico Buarque, Roberto Carlos, entre outros clássicos.


A Formação do Trio

Franco e Gonçalves faziam parte de um trio formado por outro integrante, Jorge, que tocava cavaquinho, falecido há quase dois anos. Eles tocavam samba e samba-canção, sempre na rua 15 de Novembro, no centro da capital paulista. Após a morte do parceiro, a dupla resolveu tocar no Parque da Luz, onde conheceram o saxofonista Erito de Souza Leão.

Leão conta que o encontro com a dupla Franco e Gonçalves não foi casual, pois já tinha ouvido eles tocarem na rua 15 de Novembro e desde então, passou a admirá-los. Quando os encontrou na Praça da Luz, aproveitou a oportunidade, os abordou dizendo que tocava sax e que gostaria de tocar com eles. O músico relata que, no início, Gonçalves não acreditou muito e até fez piada da situação, mas acabaram conversando melhor e formaram um novo trio.

Para eles, o compromisso é com a música e com o prazer de fazer o que realmente gostam. Eles não têm um vínculo profissional e nem a obrigação de tocar. Simplesmente se encontram porque gostam do que fazem e se reúnem para tocar aos sábados e domingos no parque, embora isso não seja uma obrigação. “A gente procura tocar aqui todo final de semana, mas quando não dá não tem briga. Nós não temos uma agenda”, completa Franco.


Por Everson Bertucci, Flávio Rocha e Tainá Pio

Publicado no link http://www.onne.com.br/conteudo/11499/os-seresteiros-da-pra-a-da-luz

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

NOVA MESMA HISTÓRIA

Há muito tempo a avó foi ensimesmando e aos poucos, perdendo a memória. Não lembrava do dia anterior, da ação anterior, da palavra anterior.

Era preciso alguém que cuidasse dela, pois já não distinguia muito bem os objetos. Dava-lhes outros nomes, e era dada a achar que a água do vaso sanitário era encantada.


-- ela faz as coisas voltarem.


Também tinha ímpetos de querer pular a janela.

-- do lado de lá tem muita vida, dizia.


Puseram grades na janela.


Além desses cuidados especiais, a avó costumava contar todos os dias a mesma história: que foi casada com um general, teve treze filhos, que dois deles morreram na guerra como bravos heróis e que os girassóis lhe traziam uma grande tristeza.

Na família ninguém mais tinha paciência de ficar tomando conta dela. Ter de ouvir a mesma história várias vezes ao dia e se atentar para que não mexesse na água do vaso sanitário.
Henrique, de 9 anos, era o único que sobrara para cuidar da avó. Seus pais o obrigaram. Detestou a idéia, mas não havia escolha. Prometeram uma boa mesada.


-- você sabia que eu gosto de docinho? Perguntava a avó ao neto.


Ele não respondia. Ficava sentado entretido com os joguinhos do celular.

-- pois é, eu gosto demasiado de docinho.


Henrique nem ouve.


-- você nunca fala?


Silêncio.


-- como você se chama?


Meio irritado, responde.


-- Henrique.
-- ah, você fala sim. E tem uma voz bonita! E se fala, ouve. Vou te contar uma história.

E contava. Dia após dia a mesma história. Enquanto contava, se dirigia ao banheiro.


-- Vó, não vai mexer na água do vaso, viu?! É suja!


Ela parou na hora e ficou pensativa. Virou a cabeça na direção do neto, o olhou bem e disse:

- Vó?! Mas eu não sou sua vó. Te conheci agora.


E ficou espantada. Henrique, para não se estender no assunto...


-- Ah, é verdade. Eu devo estar ficando louco.


Ela até esqueceu que estava indo ao banheiro e voltou. Os dias passavam e ela contava para Henrique a mesma história, que entretido com seus joguinhos no celular, mal escutava. Até o dia em que foi tentar impedi-la de mexer na água do vaso sanitário e o celular caiu lá dentro e pifou.


Como não tinha mais como se distrair com seus jogos eletrônicos, começou a levar alguns brinquedos para não ter que dar ouvidos àquela história da avó. O primeiro, foi um caminhão de madeira.

-- que caminhão bonito você tem, menino. Me faz lembrar uma história. Vou te contar.


E começava a mesma história. Só que agora o caminhão fazia parte dela porque dizia avó que um de seus filhos teve um igualzinho.


Henrique gostou do que ouviu. Cada vez que ele trazia um brinquedo, aquela história que ninguém mais suportava ouvir ganhava uma nova roupagem e ficava mais e mais instigante. Foi assim com a bola, com o carrinho, com a peteca e com todos os outros brinquedos e objetos. E de todo dia ela perguntar como se chamava, Henrique passou a inventar nomes. Davi, Lucas, Nivaldo...


Os nomes também despertavam novas ramificações naquela velha história. Com o tempo, o menino começou a perceber que o que a vó contava fazia parte da história de seu pai, de seus tios, de seu avô. Quando perguntava seu nome, ele passou a dar o nome de um parente e assim essas novas histórias iam entrando na história.


-- você me faz lembrar meus netos e meus filhos.
-- e onde eles estão?
-- morreram
-- todos?
-- sim. Não sobrou nenhum.
-- morreram de quê?
-- morreram de não mais gostar de mim.


Henrique parou por um tempo e ficou pensando.


-- se você quiser eu posso ser seu neto.
-- melhor não. Não quero que você morra.


Ela percebeu que ele ficou tristinho.


-- mas pode me chamar de vó, se quiser.
-- tá bom. Vamos brincar na pia do banheiro?
-- eu faço os barquinhos.
-- eu quero ser o comandante!
-- só se eu puder ser a mocinha!

Não foi difícil para Henrique perceber que era preciso morrer a cada noite, ao despedir-se da avó, para renascer no dia seguinte com outro nome e trazendo mais objetos para que pudesse ouvir uma nova mesma história.


Autoria: Everson Bertucci